quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Henriqueta Lisboa

A vida corria meio solta, quase sem eira nem beira. Nada precisava fazer muito sentido. Eu podia fazer quase tudo, e quase tudo sem pensar. Já não era a aluna exemplar de sempre; a preocupação em agradar os professores já não ocupava mais meu tempo (o que quase me custou o diploma de Letras.) Ganhava a vida aos trancos e barrancos, como professora, mas dava para comer no RU.
Até que num belo dia do ensolarado abril de 1992, depois de algumas fortes desconfianças, confirmei: havia gente pequenininha dentro de mim. Um alguém que eu ainda não conhecia, mas já amava por inteiro.
Anunciei aos quatro ventos. Diante da notícia, reações. Alguns amigos muito especiais passaram a cuidar de mim com zelos incríveis... Andrea e Eugênio, por exemplo. Como eu poderia esquecer? Tiravam fotos de minha barriga crescente e me levavam a lugares especiais para comer coisas que antes eu nunca tinha experimentado. Foi a primeira vez que comi uma empada do Caruso, por exemplo.
Também houve reações nada simpáticas. Uma tia: "Mas foi arrumar para sua cabeça, hem?" Uma amiga da família: "Foi arrumar chifre em cabeça de cavalo?" A coordenadora da escola onde trabalhava: "Você terá, mesmo, essa criança?" A jovem senhora fez questão de frisar que as mulheres podem escolher se serão ou não mães do filho que já esperam. E fechou sua fala com uma declaração que até hoje ressoa em minha mente: "Quando seu filho estiver com cinquenta anos, você ainda será mãe dele. Essa é uma escolha para toda sua vida." Eu, então, fiz minha escolha.
Escolhi ser mãe daquela garotinha para o resto de minha vida. Escolhi conhecer aquela pessoinha que já nasceu cheia de vontades e geniosa até o último fio de cabelo. Aliás, com quanto cabelo ela nasceu... E quando olhei pela primeira vez para aquele rosto, com um nariz igual ao do pai dela, eu disse: "Essa é a  minha Ana Heloísa."
Mas não era, não! Ana nasceu do meu ventre, mas tem o mundo na cabeça. E ainda me chamará de mãe quando completar noventa anos... Falará de mim aos meus netos! Sabe, isso não me assusta nem um pouco! Ana segue tranquila seu destino, mas eu sei que Deus tem planos a respeito dela. Imagino que para muito além dos cinquenta anos! Ufa... Ainda bem que eu não os interrompi.

PS: Este post nasceu de uma provocação (quem tem ouvidos para ouvir, ouça). A Aninha ficou com ciúmes da Aghata e disse que eu devia escrever um post para ela. Bom, ei-lo aqui...


A MENINA SELVAGEM
Henriqueta Lisboa
Clique para ouvir:



A menina selvagem veio da aurora
acompanhada de pássaros,
estrelas-marinhas
e seixos.

Traz uma tinta de magnólia escorrida
nas faces.
Seus cabelos, molhados de orvalho e
tocados de musgo,
cascateiam brincando
com o vento.

A menina selvagem carrega punhados
de renda,
sacode soltas espumas.
Alimenta peixes ariscos e renitentes papagaios.
E há de relance, no seu riso,
gume de aço e polpa de amora.

Reis Magos, é tempo!
Oferecei bosques, várzeas e campos
à menina selvagem:
ela veio atrás das libélulas.

LISBOA, Henriqueta. Lírica. 1958.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Manoel de Barros

Meus irmãos iam toda tarde para aquele lugar chamado escola. Depois do almoço, vestiam seus aventais brancos, pegavam suas malinhas cheias de livros, cadernos e lápis e iam. Eu ficava só olhando, curiosa... Quando voltavam daquele lugar misterioso, abriam cadernos e livros, pegavam lápis coloridos e ficavam debruçados sobre a mesa, escrevendo e desenhando. A coisa era séria! Eu era enxotada dali se fizesse barulho ou mexesse nos materiais. Na minha fantasia a escola era um lugar iluminado e alegre, onde crianças com aventais branquinhos passavam o dia riscando papéis.
Um belo dia, tive uma ideia: vesti um avental branco já pequeno para meus irmãos, enchi uma sacola com uns papéis e decidi: também vou para a escola! Quando meus irmãos saíram, como se fosse simplesmente normal, lá fui eu atrás deles... Minha mãe achou que era brincadeira, pensou que eu voltaria para casa, e sorriu aquele riso de quem não está levando criança a sério. Mas eu continuei caminhando! Estava realmente decidida a ir para a escola.Ela me chamou, mas eu disse: Eu vou para a escola... Ela correu atrás de mim, me pegou no colo, mas  não desisti de meu intento: esperneei o quanto pude... Eu precisava ir àquele lugar, minha gente! Lutei bravamente, mas a força de minha mãe me venceu. Dona Amélia me trouxe para casa e fechou a porta.
No dia seguinte, depois do almoço, adivinhem só... Coloquei o aventalzinho, peguei minha sacolinha... tsc, tsc, tsc... Não tenho outra lembrança de ver minha mãe brava comigo. Mas naquele dia eu consegui acabar com a paciência dela, que arrancou de mim o aventalzinho, rasgou-o em alguns pedaços, me olhou decidida e disse: "Pronto! Você ainda é muito nova para ir à escola".
Chorei muito... Mas aceitei que deveria esperar. E meu irmão mais velho, que me mimava o quanto podia,   resolveu que ia me deixar, sempre que eu quisesse, ficar do lado dele enquanto ele fazia as lições de casa.
quem um dia não se desesperou para ir à escola? Sonhamos tanto com esse lugar mágico, quando não o conhecemos. É quase como uma terra encantada. Depois que estamos nela, talvez alguns anos, meses, até mesmo dias, passamos a ansiar por deixá-la o mais rápido possível. É uma pena que seja assim.

SOBERANIA
Manoel de Barros
Clique para ouvir:




Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

BARROS, Manoel de. Memórias inventadas - a terceira infância. São Paulo: Planeta, 2008.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Marcus Accioly

Tem gente que acha que é teu amigo só porque um dia dividiu uma broinha mimosa contigo. Não sei, não... Amizade tem que passar pela prova de fogo das dores, e seu tempero só pega se ela ficar um tempo mergulhada na água do apreço e da admiração mútua, no vinagrete das brigas e das fraquezas de cada um. O amigo vai conhecendo tua história, teu passado. Pode até te criticar por ele, mas não te condena.
Os anos se passam e um dia você reencontra alguém. Se se emocionam, se abraçam, se olham com apreço sem desculpar-se pelo tempo decorrido, vocês são amigos. Se a pessoa até aperta tua mão, mas diz um olá sem brilho, a amizade nunca foi. Nesse caso, fica pairando no ar uma culpa e tudo o que queremos é fugir logo dali.
Isso acontece muito em tempos de Orkut, Facebook, Twitter. Quase todos os dias a gente reencontra um rosto das antigas e as reações são incrivelmente inusitadas: indiferentes, entusiasmadas, frias... Será que esperavam que você fosse alguém que já não é mais? Será que não desejavam encontrar ninguém daquele tempo? Será que algo ficou mal resolvido no passado? Nada disso importa, quando constatamos: aquilo não era amizade. Rola um certo luto, mas e daí? É como chorar por um morto desconhecido.
O mesmo acontece quando perdemos uma amizade por traição do amigo (coisa que amizade não suporta é traição ou sacanagem). Quem trai perde o amigo, mas não se lamenta, afinal fez uma escolha. Paciência. E o traído, em vez de ficar chorando as pitangas, que festeje: antes cedo do que tarde...
Amizade, mesmo, é entre crianças e passarinhos... que nos digam Leunam, Sucram e o guriatã. Amigos para galopar por aí. Amigos para nadar fundo no rio da vida. Amigos para serem irmãos. 
Amigos para juntos enfrentarem o papa-figo. Quem não quer um amigo assim?

DE UM GURIATÃ-DE-COQUEIRO 
Marcus Accioly
Clique para ouvir:


III
Guriatã-de-coqueiro,
quem você viu por primeiro,
o cavalo ou o cavaleiro,
responda, Guriatã?
- O cavalo de Sucram.
- Me diga, meu passarinho,
Sucram estavam sozinho,
me diga, Guriatã?

- Estava com seu amigo
porém corriam perigo
por causa do Papa-figo.
- Voe logo, Guriatã, vá avisar a Sucram
e Leunam, vá, minha ave,
senão não há quem se salve
da morte, Guriatã!

- Quando a vontade é de lei
é feito ordem de rei,
já fui, já disse e voltei.
- Espere, Guriatã,
peça a Leunam e Sucram
o fio inteiro da estória.
- Fui, vim, trouxe na memória.
- Me conte, Guriatã.

IV
Do que canta o Guriatã
- Eles moravam,
um do outro, na distância
que, não falhando a lembrança,
era um tiro de rifle,
e se avistavam
de perto ou de longe ainda,
como quem mora em Olinda
só vive vendo o Recife.

Os dois montavam
no alazão Ouro-Fino:
se indagava: "Esse menino
é irmão daquele de lá?"
Ou cavalgavam
um na garupa e um na sela:
"Sai da frente, abre a cancela,
que o cavalo quer voar".

Sempre caçavam:
"Meu cachorro Fede-e-Cheira
pedra de baliadeira
no papo do sabiá".
E atravessavam
de margem a margem de areia
o Siriji que na cheia
é rio de se afogar.

Sucram, o louro,
botava, no seu terraço,
letra em música de pássaro:
"Dó, ré, mi, sol, si, fá, lá".
Ambos, em coro, diziam, feito canção,
os romances do sertão
galopes da beira-mar.

Leunam, moreno-claro
fez com seu amigo
emboscada ou esconderijo
do dele e do seu tamanho,
pra no terreno
dos bambus do Siriji
os dois olharem dali
mulheres nuas no banho.

V
Dos dois amigos
Lá vai Sucram e Leunam,
que sempre vão sempre os dois:

- Ei, pastorador-de-gado,
que nomes têm os teus bois?

- Perguntem primeiro a eles
pra que eu diga depois.

- Perguntamos, nos disseram,
só falta agora saber,
pastorador, o teu nome
que boi nenhum quis dizer.

- Meu nome é não tenho nome,
me chamam por Sarará
Cravao Cancão Carinhoso
Cara-Preta Carajá
Manhoso Manso Mimoso
Satisfeito Simpatia
Ronceiro Ranço Rajado
Realejo Regalia
Afoito Agreste Africano
Primavera Piranji
Lerdo Luar Lavareda
Jaguaraba e Javali

Ai, pastorador-de-gado,
disseste o antes, depois:
chamas os bois por teu nome
e pelo teu nome os bois.

ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. 2. ed. Ilustrações de Dila. São Paulo: Melhoramentos, 1988.


domingo, 23 de outubro de 2011

Ferreira Gullar

Minha gata é psicoterapeuta. Também estou certa de que lê pensamentos. Não sei por que razão tornou-se muda, mas é certo que já falou algum dia. Ou algum dia vai falar...
De manhã, quando abro meus olhos e me mexo um pouco na cama, ela sobe pelas cobertas (bem de mansinho), e vem chegando (bem de mansinho) para me acordar. Depois, vai como que me conduzindo até a lavandeira (bem de mansinho), olha para mim para certificar-se de que a estou seguindo... Leva-me até os potinhos de água e de comida, e pede que eu os troque e reabasteça: "Dá para trocar minha areia? E  meu potinho de comida? Está sujo..."
Em tempos difíceis, ela foi a companhia perfeita e me restaurou a alegria. Não que os humanos não estivessem por ali, mas nossa amizade foi mais intensa e tomou rumos de amor incondicional. Quando veio morar conosco, ela era ainda um bebê e mamava na chuquinha. Ficava no meu colo todo tempo. Ela cresceu e eu até aprendi a aceitar seu terrível instinto de arranhar os móveis e escalar cortinas. Em nossos amigos, aprendemos a apreciar até os defeitos!
É engraçado quando ela fica "de mal" comigo. Não "conversa", fica lá num canto, bem longe de mim, de preferência em outro cômodo do apartamento. Mas isso só acontece se eu dou bronca, e dura até que eu  procure por ela e peça desculpas num chamego.
Às vezes diz coisas que não compreendo. Insiste em me chamar, pede que a siga. E quando desisto de tentar entendê-la (nem sempre consigo compreender as mensagens), ela começa a arremessar objetos de sobre as estantes.
Nestes dias de blogueira, está sempre comigo, ali sobre minha cama, e me observa escrevendo. Se demoro muito, entra na frente do teclado e começa a mordiscar minha mão. Ela sabe das outras exigências da vida.

LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS

Ferreira Gullar
Clique para ouvir:


Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade

O tempo fora
de mim
é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
— dura eternamente
enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)

GULLAR, Ferreira. Muitas vozes: poemas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999.


sábado, 22 de outubro de 2011

Vinicius de Moraes

Costumo dizer que amo o Brasil que eu estou ajudando a construir. Não tenho ilusões de que seja de alguma forma a Terra Prometida, nem o país perfeito (o que, convenhamos, seria loucura dizer). Mas amo ter nascido aqui, amo falar o português do Brasil, amo nossa cultura, amo nosso jeito amoroso de ser.
Apesar desse amor rasgado por minha terra, o que mais me incomoda é a desigualdade social que construímos, com a qual nos acostumamos de maneira incrível, que de certa forma até defendemos e justificamos.
A desigualdade cruel de nosso país passa como se fosse natural e começa em gestos sutis, como quando nos parece normal pagarmos por planos de saúde e por escolas privadas. Aceitamos que o transporte coletivo seja de péssima qualidade e compramos um carro. Se podemos pagar, qual o problema? E nos justificamos: "Assim sobram vagas no serviço público para quem não pode pagar." Ah, como somos nobres! O maior problema disso é que, de repente, passamos a conviver numa boa com a miséria de muitos e a aceitar o fato de que estes sequer conseguem trabalho. E passamos pensar que a culpa é mesmo dessas pessoas que não estudaram, que não se qualificaram, que não se prepararam... Numa terrível inversão, como se a todos tivessem sido dadas chances iguais de acesso ao ensino.
Suponho que o maior mal que a desigualdade nos cause seja este: impedir que nos sintamos parte de uma nação, nos afastando radicalmente de qualquer sentimento que nos aproxime de nossos compatriotas.
Em momentos como esse, é um remédio ler e reler as canções do exílio. Foram tantas... Gonçalves Dias, Oswald de Andrade, Chico e Tom, José Paulo Paes... E, quem diria, até o Poetinha.  Todos eles nos fazem pensar que existe algo maior, algo bonito, algo invisível que faz deles, de você e de mim brasileiros.

PÁTRIA MINHA
Vinicius de Moraes
Clique para ouvir:

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."

MORAES, Vinicius de. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998. p. 383.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Cassiano Ricardo

Meus irmãos, iguais a todos os outros meninos, jogavam bola. Lembro da praça de terra batida, do sol, dos piás correndo, da poeira. Descalços mesmo, até que chegou o tempo do Kichute. Quase sempre voltavam escuros: tinta feita de poeira e suor... Narrando cada gol, cada jogada, rindo. Às vezes, a narrativa era de alguma catimba - sempre revidada, é claro.
[Eu não via graça no futebol, mas bem que queria poder sair. Mas menina, não; menina brincava dentro de casa.]
Mas tinha dias diferentes, quando os dois voltavam sem bola, indignados, calados ou falando baixo. Tomavam banho. Clima pesado. E às cinco da tarde, quando a sirene da Rede tocava e meu pai chegava do trabalho, eu já sabia que algum vizinho viria bater palmas lá na frente, e minha mãe iria atender, e eu ouviria: "Ó Dona Amélia, posso falar com o seu Waldir?" Huuuum... Podia ser uma mãe reclamando que o filho tinha apanhado de meus irmãos. Aí meu pai desconversava, "que menino briga mesmo". Mas entrava na sala falando grosso com os dois, já assustados: "Vocês apanharam? Apanharam, heim? Por que se apanharam na rua, vão apanhar de novo!" É claro que eles nunca apanhavam, não é?
Também podia ser um vizinho reclamando de vidraça quebrada... Aí a coisa pegava...
Sabe, gente? Eu descobri que Martim Cererê morava lá em casa.

MARTIM CERERÊ, JOGADOR DE FUTEBOL
Cassiano Ricardo

Clique para ouvir:


O pequenino vagabundo joga bola
e sai correndo atrás da bola que salta e rola.
Já quebrou quase todas as vidraças,
Inclusive a vidraça azul daquela casa
onde o sol parecia um arco-íris em brasa.
Os postes estão hirtos de tanto medo.
(O pequenino vagabundo não é brinquedo...)

E quando o pequenino vagabundo
cheio de sol, passa correndo entre os garotos,
de blusa verde-amarela e sapatos rotos,
aparece de pronto um guarda policial,
o homem mais barrigudo deste mundo,
com os seus botões feitos de ouro convencional,
e zás! carrega-lhe a bola!
“Estes marotos
precisam de escola...

O pequenino vagabundo guarda nos olhos,
durante a noite toda, a figura hedionda
do guarda metido na enorme farda
com aquele casaco comprido todo chovido
de botões amarelos.
E na sua inocência improvisa os mais lindos castelos;
e vê, pela vidraça,
a lua redonda que passa, imensa,
como uma bola jogada no céu.
“É aquele Deus, com certeza,
de que a vovó tanto fala.
Aquele Deus, amigo das crianças,
que tem uma bola branca cor de opala
e tem outra bola vermelha cor do sol;
que está jogando noite e dia futebol
e que chutou a lua agora mesmo
por trás do muro e, de manhã, por trás do morro,
chuta o sol...

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Cora Coralina

Estou tão cansada que nem consigo ler poesia com paixão. Estou cansada... Preciso do sono, do sonho para sonhar com uma lua, com uma lágrima, umas visões de qualquer coisa que me inspire, e que me envie para o mundo onde é possível ler poesia. 
Estou cansada, cansada... Tão cansada que quase escrevo cansada com ç. Mas há aquelas coisas que se precisa fazer na hora. E esta postagem é uma delas. Na aula de Metodologia do Ensino de História o professor citou esse poema. Precisava compartilhar com vocês ainda hoje. E vamos logo que quase vira o dia...


A ESCOLA DA MESTRA SILVINA
Corta Coralina

Clique para ouvir:
 
Minha escola primária...
Escola antiga de antiga mestra.
Repartida em dois períodos
para a mesma meninada,
das 8 às 11, da 1 às 4.
Nem recreio, nem exames.
Nem notas, nem férias.
Sem cânticos, sem merenda...
Digo mal — sempre havia
distribuídos
alguns bolos de palmatória...
A granel?
Não, que a Mestra
era boa, velha, cansada, aposentada.
Tinha já ensinado a uma geração
antes da minha.

A gente chegava "— Bença, Mestra."
Sentava em bancos compridos,
escorridos, sem encosto.
Lia alto lições de rotina:
o velho abecedário,
lição salteada.
Aprendi a soletrar.

Vinham depois:
Primeiro, segundo,
terceiro e quarto livros
do erudito pedagogo
Abílio César Borges —
Barão de Macaúbas.
E as máximas sapientes
do Marquês de Maricá.

(...)

Num prego de forja, saliente na parede,
estirava-se a palmatória.
Porta de dentro abrindo
numa alcova escura.
Um velhíssimo armário.
Canastras tacheadas.
Um pote d'água.
Um prato de ferro.
Uma velha caneca, coletiva,
enferrujada.
Minha escola da Mestra Silvina...
Silvina Ermelinda Xavier de Brito.
Era todo o nome dela.

Velhos colegas daquele tempo,
onde andam vocês?

(...)

E faço a chamada de saudade
dos colegas:
Juca Albernaz, Antônio,
João de Araújo, Rufo.
Apulcro de Alencastro,
Vítor de Carvalho Ramos.
Hugo das Tropas e Boiadas.
Benjamim Vieira.
Antônio Rizzo.
Leão Caiado, Orestes de Carvalho.
Natanael Lafaiete Póvoa.
Marica. Albertina Camargo.
Breno — "Escuto e tua voz vai
se apagando com um dolente ciciar
de prece".

(...)

E a Mestra?...
Está no Céu.

CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. 16. ed. São Paulo: Global, 1990.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Carlos Nejar

Me ocorre que é perfeito o casamento do poeta com a ceramista. Ela, meiga, doce, mãos fortes, capazes de imaginar o tudo que da argila pode sair, e, dando forma ao disforme, conforma um vaso, um prato, uma panela.
Ele, que tem ideias, sonhos e livros, escolhe palavras "como catando feijão" e, cozinhando-as, delas retira o melhor caldo. Ninguém os conhece. Não ganham dinheiro nem têm fama. Só têm o amor um do outro, e a esse amor se entregam com alma.
Dentro do ônibus, eles se beijam loucamente. Não há ninguém por perto. Ninguém os vê. Estão sozinhos com a argila e o sonho. Mas o beijo longo que se dão ressoa pelo ônibus inteiro e faz a água do chafariz subir mais alta, e as árvores florescerem, e as flores perfumarem o ar da Santos Andrade. A tarde desce calma. Já podemos voltar para nossas casas.

TUDO SE PERFAZ
Carlos Nejar
Clique para ouvir:


I
Se queres, não existo.
Nossas raízes
são o movimento.
Não posso te dar
senão os dias
que se exaurem conosco.

Deves ver, mensurar
alfabetos, desertos.
E ausência
é quanto peço.

Se queres, não existo.
Sou ancestral das pedras,
viajei ao início.

Entrei em ti, no caule
de existir.
Mas existir
é um lapso de paciência,
entidade sem Deus
que te vincou a mim.

II
Nossa família: as estações.
Nada sobra
do que julgam ser
as propriedades.

O corpo, a alma
apenas usufruto.
Também os meus deveres.

Só o amor é nosso.
E o soluço.

III
Sofri em mim, em ti.
Não cabe retrocesso.
O peso, a pedra, a dor
e o limite tão forte
que nos salva.

Mesmo se a morte erra,
o amor acerta
e em flor nos ultrapassa.

Sofri, hei de sofrer.
Mas qual o sexo
que a dor nos apresenta,
qual o nexo
de suas oferendas?

Quando vimos,
éramos caminhos.
Temos de transitá-los
ou cindi-los.

Por que não – peremptórios ,
de mãos dadas –
ao sol que nos agrava?

Entretanto o amor
só tem a forma humana.
A dor conforme,
desconforme,
com terra de ninguém
por território.

IV
Devo eu dividir o amor em partes
ou dividir-me nele, compungido
nos dias que me cabe não retê-lo.
Desterrá-lo de mim como um gemido
nas cordas de teus olhos, teus sentidos.

Depois ruir a dor, ruir a espera,
no que de espera, as coisas se entreabriram,
viram adultas esta deferência
de tudo andar na dor e no sigilo.

E Deus aparecer e se ocultar
quando o chamei de súbito.
Deus lutar comigo – nós ferozes,
amigos, inimigos. Nós, as vozes
que podem ecoar, se vibram juntas,
na lona de outras vozes, no manejo
de sombras e marujos.

Devo eu dividir com a volúpia,
a vintena, o disfarce dos deveres.
Mas o amor me reconhece, me fareja,
persegue o foragido.

Devo eu dividir. E que metade
saberá de sua outra? Que metade
será a corruptível, obstinada,
enquanto a seu revel, a parte pura
irá pôr-se de armas.

Devo eu dividir o amor em partes,
que o todo me refuta: vilipêndio
de augúrios e vínculos.
Solvida a ventania, designamos
o amor resistente, renitente.
Solvida a ventania, somos mares.
Solvido o mar, a praia em toda parte.

V
Não sei até onde enterrar
o amor, enterrar-me
no amor, desenterrar-me
dele e refazer depois
as noites sem revê-lo.

Não sei. Forças acodem
ou por elas perpassa
o seu tropel. O dia
é necessário. E somos
resistentes, solidários.

Tudo se perfaz, doendo,
com o mais raro apelo.
Tudo age mudando, indo
a outro amor que insiste
em ser eterno.

VI
Sei que amo
antes das coisas existirem.

A vida me define
e eu decido, existindo.

Não sei o que me fica
ou ficando, sobrepõe-se
ao desígnio.

Muito antes
de me escolher, banindo.

Sei que amo
e tudo acontecendo,
indo, vindo.

VII
Perfilhei a solidão
de estar em mim,
em ti
e nunca estar.

Perfilhei este amor,
o universo
e por haver pactuado,
Deus é um verso estreito.

Assumi teu esforço
ao lado meu,
para o poder achar
quando me esqueço.

Assumi a levedura,
o fogo.
E me banhei duas vezes
no mesmo corpo.

VIII
A batida do sino,
a batida da noite.

Não sei se persigo
a batida do sino.

O meu corpo no teu:
A sacada do sino.

O meu corpo no teu,
sempre a estibordo,
a batida do gongo.

O meu corpo no teu,
clarinete tocando.

Na fachada da lei
a batida do corpo.

O rei morto, rei posto
no badalo do osso.

A batida do sino,
o revoo do pacto
no sangue. O rebordo.

A batida do cão,
o seu casco de fogo.

A batida do cão,
o reino partilhado.

Na seteira do sino,
o amor redimido.

A batida do cão,
a cancela do sino.

NEJAR, Carlos. Fogo da consciência. In: Carlos Nejar – Três livros. Rio de Janeiro: Círculo do Livro, s.d. p.123-129.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Adélia Prado

Às vezes eu fico me perguntando por que é tão fácil encontrar um poema triste, e tão menos fácil encontrar um poema engraçado. Mesmo os poemas de amor e os satíricos têm um quezinho de dor e de amargura. Concluo precipitadamente que é porque os poetas estão tão antenados com a vida ao redor deles que aquilo por que nós, mortais, passamos "assim" sem nem notarmos, aquilo que vemos e não nos toca, chega ao coração do  artista rugindo, rompendo, doendo... E tamanho força os impele a criar.
Lembro de Vinícius: "É melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração... Mas pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza se não não se faz um samba, não..." Parece que se não conseguirmos olhar o mundo e sermos tocados por ele fica impossível fazer poesia.
Acontece que poesia também não se faz somente de olhar o mundo. Existe algo mais, um quase ser arrebatado por pensamentos, por ideias, por reflexões, um inconformismo produtivo que leva o poeta para muito além, diversas estações adiante de nós. Adélia Prado diz: "A poesia aponta para o mesmo lugar para onde a fé nos leva. São experiências de natureza comum. Tanto é verdade que a linguagem é a mesma. Os textos místicos são paradoxos, falam por metáforas, porque falam do indizível. A poesia é a mesma coisa, e por isso o absurdo da linguagem poética, sua falta de lógica racional, sua obediência única ao estatuto interno da expressão (PRADO, Adélia. O Pelicano. Rio de Janeiro: Record, 2007.).
Para mim, a experiência com a poesia é mesmo como a experiência religiosa; ambas são tristes, porque solitárias, porque dizendo do indizível nos tornam, de certa forma, incomunicáveis no império do saber dizer em que vivemos.


A CÓLERA DIVINA
Adélia Prado


Clique para ouvir:


Me deixo estar inerte,
porque não há em mim qualquer coragem.
Não posso ter, nem ser,
nem morrer, nem viver,
não posso entrar nem sair.
Clamo por Deus e Ele me devolve ao tempo,
às notas fiscais que
– por ordem do governo –
devo exigir dos maus negociantes.
Por que todo este peso sobre mim?
Não quero ser fiscal do mundo,
quero pecar, ser livre,
devolver aos ladrões
sua obrigação com os impostos.
Tudo me está vedado,
não há lugar para mim,
parece que Deus me bate,
parece que me recusa,
pedir auxílio é pecar,
não pedir é loucura,
é consentir no auxílio do diabo.
Quem é o estranho a quem chamo de Jonathan?
Por Deus, quem sou?
Escorpião está no céu,
em dias felizes eu faria um verso:
‘brilho de escorpião na friagem da noite’.
Soa agora como bajulação à divindade,
A fala de um mentiroso,
de um falastrão covarde.
Não ireis acreditar
– se pensáveis que líeis um poema –
alguém me entrega uma carta:
“eu agora coloquei dentes,
estou mais jovem,
só a canseira de velho continua”.
O terror sumiu,
porque ao reproduzir-vos a carta
corrigi duas palavras
e não há quem às portas do inferno
socorra-se das gramáticas.
Portanto, um poder novo me salva,
uma compaixão,
que usa as constelações e os correios
e a mesma língua materna
que me ensinou a gemer.
O Misericordioso pôs nos ombros
sua ovelha mais fraca.
PRADO, Adélia. O pelicano. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 53-54.

domingo, 16 de outubro de 2011

Menotti Del Picchia


Abro o Menotti Del Picchia e acho que ele vai desmontar (sua capa já está quase se soltando...). A edição é de 1965. A ilustração da capa foi feita por Darcy Penteado. Trata-se de uma edição da Martins Editora que reúne quatro obras do festejado modernista: Juca Mulato, Máscaras, Angústia de D. João e O amor de Dulcineia. É uma das minhas mais recentes aquisições após andanças pelos sebos curitibanos.
Cismo. Na escola, a gente estuda sobre os poetas. Memorizamos nomes. Datas. Feitos. Ideias. Mas, raramente, lemos esses mesmos poetas. Em especial isso vale para os modernistas. Não paramos para simplesmente ler esses poemas deliciosos com que somente os modernistas, com sua ousadia deselegante, poderiam nos brindar. Fazendo isso, negamos aos alunos o direito à beleza. Hoje, como que em tributo, quero ler Menotti del Picchia, reencontrar o Juca Mulato e sofrer com ele seu amor proibido pela filha da patroa.

JUCA MULATO
Menotti Del Picchia
Clique para ouvir:



Germinal

Nuvens voam pelo ar como bandos de garças.
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro, apruma-se a bandeira
de São João, desfraldando o seu alvo losango.

Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.
Vem, na tarde que expira e na voz de um curiango,
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.

Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.
No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos e
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e, num magote escuro, a manada se abisma

na treva.
                     Anoiteceu.
                                       Juca Mulato cisma.

II
Como se sente bem recostado no chão!
Ele é como uma pedra, é como a correnteza,
uma coisa qualquer dentro da natureza
amalgamada ao mesmo anseio, ao mesmo amplexo,
a esse desejo de viver grande e complexo
que tudo abarca numa força de coesão.

Compreende em tudo ambições novas e felizes,
tem desejo até de rebrotar raízes, deitar ramas pelo ar,
sorver, junto da planta, e sobre a mesma leiva,

o mesmo anseio de subir, a mesma seiva,
romper em brotos, florescer, frutificar!



III
"Que delícia viver! Sentir entre os protervos
renovos se escoar uma seiva alma viva,
na tenra carne a remoçar o corpo moço..."
E um prazer bestial lhe encrespa a carne e os nervos;
afla a narina; o peito arqueja; uma lasciva
onda de sangue lhe incha as veias do pescoço...

Ei-lo supino e só na noite vasta. Um cheiro
acre de feno lhe entorpece o corpo langue
                                         e, no torso trigueiro,
enroscam seus anéis serpentes de desejos
e um pubescente ansiar de abraços e de beijos
incendeia-lhe a pele e estua-lhe no sangue.
Juca Mulato cisma.
                                                        Escuta a voz em coro

dos batráquios, no açude, os gritos soluçantes
do eterno amor dos charcos.
É ágil como um poldro e forte como um touro;
no equilíbrio viril dos seus membros possantes
há audácias de coluna e elegância dos barcos.
O crescente, recurvo, a treva em brilho frange
e, na carne da noite, imerge-se e se abisma
como, num peito etíope, a ponta de uma alfange.
Juca Mulato cisma...
A natureza cisma.



IV
Aflora-lhe no imo um sonho que braceja;
estira o braço, enrija os músculos, boceja,
supino fita o céu e diz em voz submissa:
"Que tens, Juca Mulato?..." e, reboleado na erva,
sentindo esse cansaço irritante que o enerva
deixa-se, mudo e só, quebrado de preguiça.

Cansado ele? E por quê ? Não fôra essa jornada
a mesma luta, palmo a palmo, com a enxada
a suster no café as invasões da aninga?
E, como de costume, um cálice de pinga,
um cigarro de palha, uma jantinha à toa,
um olhar dirigido à filha da patroa?
Juca Mulato pensa: a vida era-lhe um nada...
Uns alqueires de chão; o cabo de uma enxada;
um cavalo pigarço; uma pinga da boa;
o cafezal verdoengo; o sol quente e inclemente...

Nessa noite, porém, parece-lhe mais quente
                                             o olhar indiferente
                                             da filha da patroa...
"Vamos, Juca Mulato, estás doido ?
Entretanto, tem a noite lunar arrepios de susto,
parece respirar a fronde de um arbusto.

O ar é como um bafo, a água corrente, um pranto.
Tudo cria uma vida espiritual violenta.
O ar morno lhe fala, o aroma suave o tenta...
"Que diabo!" Volve aos céus as pupilas, à toa,
e vê, na lua, o olhar da filha da patroa...
Olha a mata: lá está! O horizonte lho esboça,
pressente-o em cada moita, enxerga-o em cada poça
e ele vibra, e ele sonha e ele anseia, impotente,
esse olhar que passou, longínquo e indiferente!



V
Juca Mulato cisma. Olha a lua e estremece.
Dentro dele um desejo abre-se em flor e cresce
e ele pensa, ao sentir esses sonhos ignotos,
que a alma é como uma planta, os sonhos como os brotos,

vão rebentando nela e se abrindo em floradas...

Franjam de ouro, o ocidente, as chamas das queimadas,

Mal se pode conter de inquieto e satisfeito.

Adivinha que tem qualquer coisa no peito
e às promessas do amor a alma escancara ansiado
como os áureos portais de um palácio encantado!...

Mas a mágoa que ronda a alegria de perto
entra no coração sempre que o encontra aberto...

Juca Mulato sofre... Esse olhar calmo e doce
fulgiu-lhe como a luz, como a luz apagou-se.
Feliz até então, tinha a alma adormecida....
Esse olhar que o fitou, o acordou para a vida!
A luz que nele viu deu-lhe a dor que agora o assombra,
como o sol que traz a luz e, depois, deixa a sombra...



VI
E, na noite estival, arrepiadas, as plantas
tinham na negra fronde, umas roucas gargantas
bradando, sob o luar opalino, de chofre:
"Sofre, Juca Mulato, é tua sina, sofre...
Fechar ao mal de amor nossa alma adormecida
é dormir sem sonhar, é viver sem ter vida...
Ter, a um sonho de amor, o coração sujeito
é o mesmo que cravar uma faca no peito.
Esta vida é um punhal com dois gumes fatais:
não amar é sofrer; amar é sofrer mais"!



VII
E, despertando à Vida esse caboclo rude,
alma cheia de abrolhos,
notou, na imensa dor de quem se desilude
que, desse olhar que amou, fugitivo e sereno,
só lhe restara ao lábio um travo de veneno,
uma chaga no peito e lágrimas nos olhos!



PICCHIA, Menotti Del. Juca Mulato: Germinal. São Paulo: Martins Editora, 1965. p .2-32.

sábado, 15 de outubro de 2011

Thiago de Mello

Costumo dizer que, uma vez professor, sempre professor. Não importa quanto tempo já estejamos fora de sala de aula ou se já exercemos, há muito, outra profissão. Não adianta; a docência se apega a nós de tal forma, que não perdemos nunca um certo jeito de falar, já meio que explicando, deixando transparecer nosso desejo de nos fazermos entender, e meio que sem querer nos metendo assim na vida dos outros, porque em sala de aula não tem essa coisa de "cada um que cuide da sua vida". Nem que a gente queira!
Comecei a dar aulas aos 20 anos. Era uma menina falando a outros meninos. Errei muito, e como eu gostaria de dar Ctrl + Z na vida para poder voltar atrás e refazer muitas coisas, e não fazer outras tantas. Infelizmente, não é assim que funciona aqui no mundo real. E assim seguimos carregando uma bagagem de arrependimentos mas, também e principalmente, de conquistas.
Recebi a graça de ser professora de gente que aprendeu (um pouco comigo também) a amar o texto escrito, a boa fala, a leitura envolvente. Essas são as maiores conquistas que levo comigo. Os erros que cometi, eu os conheço tão bem! A única certeza que tenho é que iguais a eles não voltarei a cometer.
Sei que é assim para muitos dos amigos professores que hoje me leem. O salário pode não ser lá essas coisas; os alunos nem sempre nos distinguem com o respeito que merecemos; e a escola, quantas vezes burocratiza nosso desempenho! Entretanto, professores, prosseguimos...

CANÇÃO PARA OS FONEMAS DA ALEGRIA
Thiago de Mello
A Paulo Freire

Clique para ouvir:



Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente.

Sucede que só sei dizer amor
quando reparto o ramo azul de estrelas
que em meu peito floresce de menino.

Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,

e poder ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas

são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis girando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa.

Às vezes nem há casa: é só o chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:

porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,

e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão

que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que paga por ser homem,
mas o modo de amar – e de ajudar
o mundo a ser melhor. 



Peço licença
para avisar que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:

ele atravessa os campos espalhando
a boa-nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte

contra o bicho de quatrocentos anos,
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura.

Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:

canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.

MELLO, Thiago de. Faz escuro mas eu canto: porque a manhã vai chegar. 23. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009. p. 35-36

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Castro Alves

Já disse para vocês que guardo memórias vigorosas de muitos livros didáticos com que tinha contato quando era criança. Lembro com especial carinho de uma coleção de OSPB ou Moral e Cívica com ilustrações em preto e alaranjado, com uma arraia que voava, como num tapete mágico, levando uma turminha por todo o Brasil. Havia uma brasilidade naquelas crianças de todas as etnais. Eu conhecia todas elas pelo nome e me via um pouco em cada uma delas.
Naquela coleção eu descobri um respeito por meu país, tão grande, tão cheio de gente trabalhadora! Os nordestinos e seus costumes. Nós, do Sul, e nossa variedade. O Norte e o Sudeste, cada um com suas próprias riquezas. E o vigor do Centro-Oeste... Numa das unidades desse livro, uma comunidade de pescadores fazia um MUTIRÃO – e eu aprendi o significado dessa palavra e também de gente que se ajudava forte. Que bonito! Então trabalhar era para todas as cores!
Mas nem sempre foi assim, e para muita gente ainda não é. Trabalhar tem pecha de coisa feia e suja. E certos tipos de trabalho, então?! Castro Alves fala para gente deste nosso tempo em que trabalhar ainda é atividade indigna, gente para quem é certo vender e comprar gente - seu tempo em família, sua vida pessoal, suas almas. No tempo de Castro Alves, as duras palavras que emitiu, por vezes não foram compreendidas e sofreram censura. Não viram que o poeta-profeta-vidente fazia como tantos outros antes dele – Jeremias, Davi, Asafe e Isaías – que, ao verem tamanho sofrimento do povo explorado, questionaram até mesmo o amor divino. Hoje em dia, quantos de nós o censurariam?

O VIDENTE
Castro Alves
Clique para ouvir:


Virá o dia da felicidade para todos. (Isaías)

Às vezes quando à tarde, nas tardes brasileiras,
A cisma e a sombra descem das altas cordilheiras;
Quando a viola acorda na choça o sertanejo
E a linda lavadeira cantando deixa o brejo,
E a noite – a freira santa – no órgão das florestas
Um salmo preludia nos troncos, nas giestas;
Se acaso solitário passo pelas picadas,
Que torcem-se escamosas nas lapas escarpadas,
Encosto sobre as pedras a minha carabina,
Junto a meu cão, que dorme nas sarças da colina,
E, como uma harpa eólia entregue ao tom dos ventos
– Estranhas melodias, estranhos pensamentos,
Vibram-me as cordas d'alma enquanto absorto cismo,
Senhor! vendo tua sombra curvada sobre o abismo,
Colher a prece alada, o canto que esvoaça
E a lágrima que orvalha o lírio da desgraça,
Então, num santo êxtase, escuto a terra e os céus.
E o vácuo se povoa de tua sombra, ó Deus!

Ouço o cantar dos astros no mar do firmamento;
No mar das matas virgens ouço o cantar do vento,
Aromas que s'elevam, raios de luz que descem,
Estrelas que despontam, gritos que se esvaecem,
Tudo me traz um canto de imensa poesia,
Como a primícia augusta da grande profecia;
Tudo me diz que o Eterno, na idade prometida,
Há de beijar na face a terra arrependida.
E, desse beijo santo, desse ósculo sublime
Que lava a iniquidade, a escravidão e o crime,
Hão de nascer, virentes nos campos das idades,
Amores, esperanças, glórias e liberdades!
Então, num santo êxtase, escuto a terra e os céus,
O vácuo se povoa de tua sombra, ó Deus!

E, ouvindo nos espaços as louras utopias
Do futuro cantarem as doces melodias,
Dos povos, das idades, a nova promissão...
Me arrasta ao infinito a águia da inspiração...
Então me arrojo ousado das eras através,
Deixando estrelas, séculos, volverem-se a meus pés...
Porque em minh'alma sinto ferver enorme grito,
Ante o estupendo quadro das telas do infinito...
Que faz que, em santo êxtase, eu veja a terra e os céus,
E o vácuo povoado de tua sombra, ó Deus!

Eu vejo a Terra livre... como outra Madalena,
Banhando a fronte pura na viração serena,
Da urna do crepúsculo, verter nos céus azuis
Perfumes, luzes, preces, curvada aos pés da cruz...
No mundo – tenda imensa da humanidade inteira –
Que o espaço tem por teto, o sol tem por lareira,
Feliz se aquece unida a universal família.
Oh! dia sacrossanto em que a justiça brilha,
Eu vejo em ti das ruínas vetustas do passado,
O velho sacerdote augusto e venerado
Colher a parasita – a santa flor – o culto,


Como o coral brilhante do mar na vaza oculto,
Não mais inunda o templo a vil superstição;
A fé – a pomba mística – e a águia da razão,
Unidas se levantam do vale escuro d'alma,
Ao ninho do infinito voando em noite calma.
Mudou-se o férreo cetro, esse aguilhão dos povos,
Na virga do profeta coberta de renovos.
E o velho cadafalso horrendo e corcovado,
Ao poste das idades por irrisão ligado
Parece embalde tenta cobrir com as mãos a fronte,
– Abutre que esqueceu que o sol vem no horizonte.

Vede: as crianças louras aprendem no Evangelho
A letra que comenta algum sublime velho,
Em toda a fronte há luzes, em todo o peito amores,
Em todo o céu estrelas, em todo o campo flores...
E, enquanto, sob as vinhas, a ingênua camponesa
Enlaça às negras tranças a rosa da deveza;
Dos saaras africanos, dos gelos da Sibéria,

Do Cáucaso, dos campos dessa infeliz lbéria,
Dos mármores lascados da terra santa homérica,
Dos pampas, das savanas desta soberba América
Prorrompe o hino livre, o hino do trabalho!
E, ao canto dos obreiros, na orquestra audaz do malho,
O ruído se mistura da imprensa, das ideias,
Todos da liberdade forjando as epopeias,
Todos co'as mãos calosas, todos banhando a fronte
Ao sol da independência que irrompe no horizonte.

Oh! escutai! ao longe vago rumor se eleva
Como o trovão que ouviu-se quando na escura treva,
O braço onipotente rolou Satã maldito.
É outro condenado ao raio do infinito,
É o retumbar por terra desses impuros paços,
Desses serralhos negros, desses Egeus devassos,
Saturnos de granito, feitos de sangue e ossos...
Que bebem a existência do povo nos destroços...
..............................................................................
Enfim a terra é livre! Enfim lá do Calvário
A águia da liberdade, no imenso itinerário,
Voa do Calpe brusco às cordilheiras grandes,
Das cristas do Himalaia aos píncaros dos Andes!
Quebraram-se as cadeias, é livre a terra inteira,
A humanidade marcha com a Bíblia por bandeira.
São livres os escravos... quero empunhar a lira,
Quero que est'alma ardente um canto audaz desfira,
Quero enlaçar meu hino aos murmúrios dos ventos,
Às harpas das estrelas, ao mar, aos elementos!
..............................................................................
Mas, ai! longos gemidos de míseros cativos,
Tinidos de mil ferros, soluços convulsivos,
Vêm-me bradar nas sombras, como fatal vendeta:
"Que pensas, moço triste? Que sonhas tu, poeta?"
Então curvo a cabeça de raios carregada,
E, atando brônzea corda à lira amargurada,
O canto de agonia arrojo à terra, aos céus,
E ao vácuo povoado de tua sombra, ó Deus!

ALVES, Castro. Os escravos. São Paulo: Martins Fontes, s.d. p. 159-163. Coleção Biblioteca da Literatura Brasileira, v. 3.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Casimiro de Abreu

Foi num certo baile do RU – para juntar fundos para a campanha do DCE, da chapa O pulso ainda pulsa, que eu e o Manfred começamos nossa louca, louca história de amor. Mas não temos exclusividade nisso, a literatura nos mostra. Parece que sempre foi assim. Num baile, Mr. Darcy começa a descobrir os encantos de Miss Elisabeth Beneth. Num baile, o Fantasma da Ópera aparece diante de todos e rapta Christine. Num baile, ainda, a moreninha Carolina se reencontra com seu amor de infância, Augusto. E, claro, num baile Cinderela perde seu sapatinho exatamente à meia-noite, fugindo daquele que se tornaria o homem de sua vida. E vocês que me leem certamente lembram de outros tantos bailes, de Shakespeare a Lygia Fagundes Telles. Parece que os bailes foram e continuam sendo esses ambientes propícios às histórias de amor. Está bem que mudaram de nome; hoje se chamam baladas... Mas a palavra guarda semelhança, não? Na penumbra, as trocas de olhares entre as danças, o quero-não-quero, a dúvida, os ciúmes... Parece que também era assim no tempo do nosso bem comportado Casimiro de Abreu.

A VALSA
Casimiro de Abreu
Clique para ouvir:



Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranquila,
Serena,
Sem pena
De mim!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P'ra outro
Não eu!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem?!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,
— Eu vi!...

Calado,
Sozinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!
Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
 Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!

Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida
No chão!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!


ABREU, Casimiro de. Antologia da poesia romântica brasileira. São Paulo: Ibep, 2008. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Bruna Lombardi

Eu já disse pra vocês que tenho andado por muitos sebos aqui de Curitiba. Estou impressionada com o que tenho encontrado neles. Não somente as quase raridades, mas também algumas preciosidades, livros muito bons e pouco conhecidos. Já encontrei uma 1ª edição de Helena Kolody com autógrafo especial, uma edição do livro Poetas na praça - antologia da Feira do Poeta... À época, muitos de meus alunos iam à feira para imprimir poemas... Tal livro foi impresso na gráfica Carimbex! Vixe! Quem por aí se lembra disso?
Numa dessa encontrei um exemplar um festejado livro de poemas da Bruna Lombardi (guardem seus preconceitos na sacola, por favor), No ritmo da festa. Escolhi postar para vocês algo que considerei sensível e interessante.
(Preciso fazer parênteses bem grandes: Hoje vou lançar duas postagens para compensar ontem, que não cumpri o prometido no Motivo. E também vou, na medida do possível, substituir umas gravações por outras melhores, que estou me aprimorando nessa coisa da "produção sonora" e algumas dentre as primeiras ficaram bem ruinzinhas, vocês hão de convir comigo...)

ROMANCE DE BAIRRO
Bruna Lombardi
Clique para ouvir:




João... mas logo agora
que as coisas tavam se ajeitando
logo agora que eu tinha
aprendido a fazer suflê
logo agora que eu tava
com a melhor das intenções
que eu até falei com o síndico
pra abrir uma janela
pra aquele terreno baldio
só pra você olhar o jogo
que eu ia trocar meu canário
pelo relógio do Armando
de que você tanto gosta, João.

Mas logo agora, João
que pode ter guerra lá fora
que eu tô com medo da vida
que prendem a gente na rua
e nem dizem por que.
logo agora...
quando eu ia plantar tulipas
pra gente fazer de conta
que o mundo é diferente
pra gente não se dar conta
do que está acontecendo
do lado de fora do mundo, João
logo agora
que eu fiz um quadro novo
com umas cores bonitas
porque na rua, João
já tem cinza demais.
eu ia pintar as paredes
com as cores do absurdo
João em que lugar do mundo
você encontra um canto assim?

João, a coisa não é essa
é preciso ter invento
a coisa precisa de graça
tem que ter magia, João
e isso o mundo esquece
... o Mundo, João, não merece
consideração.

Mas logo agora
que eu tinha comprado incenso
e avenca de pôr no vaso
cheiro de jasmim no portão
você não queria... João

logo agora
que as coisas tavam se ajeitando
logo agora que eu tava
com a melhor das intenções
logo agora, João

esperasse mais um pouco.
LOMBARDI, Bruna. No ritmo dessa festa. São Paulo: Três, 1976. p. 81-82.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Eduardo Alves da Costa

Voltei à vida. Tenho podido estar mais com minha família, e serena (essa tem sido uma grata surpresa). Tenho redescoberto a ternura de estar com meu marido. Tenho conseguido conversar um pouquinho mais com Gabriela e Ana. Há algo de restituição nesses meros atos cotidianos. Nesse tempo, vou reaprendendo que os membros de minha família mais próxima me amam, e merecem meus agradecimentos, porque me suportam sempre, especialmente em tempos duros. Me parecem tempos de corrigir injustiças, penso.
A beleza desse novo tempo também tem me devolvido a possibilidade de viajar por Curitiba comigo mesma. Nesses passeios, adoro entrar nos sebos – são vários – e encontrar algumas boas pechinchas de livros, e outros diante dos quais, embora custem muito para mim, na atual circunstância, eu penso: Puxa, por esse livro eu quero pagar esse preço...
E numa dessas minhas andanças, lendo a apresentação de um livro chamado No caminho, com Maiakóvski (poesia reunida), descubro que o poema que dá nome ao livro não foi, não, escrito por Bertold Brecht e nem por Maiakóvski (como tantas vezes já li por aí, inclusive em bons livros didáticos). Na verdade, seu autor é o brasileiríssimo e quase desconhecido niteroiense Eduardo Alves da Costa.
Tamanha injustiça já foi corrigida algumas vezes por ninguém menos que Mino Carta, Henfil e Manoel Carlos – mas eu não posso resistir e resolvo gravar o poema por aqui também, para engrossar o caldo com eles. Afinal esses tempos, me parece, são bons tempos para corrigirmos pequenas e grandes injustiças.

NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI
Eduardo Alves da Costa
Clique para ouvir:



Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski – poesia reunida. São Paulo: Geração Editorial, 2003. p. 47-49.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Jorge de Lima

Hoje aprendi, para minha surpresa, que liderança se aprende. E, segundo me disseram, uma das características que o líder precisa desenvolver é a tal da resiliência. Em minhas palavras: a capacidade de receber muita porrada e, ao final, retornar à forma original, tendo preservadas sua integridade fisica, mental, moral. Tarefa para semideuses, não? Mas tudo bem, que deve existir um hércules em cada um de nós.
Acontece que atrás de minha orelha tem um cachorro pulguento que não me deixa simplesmente aceitar o fato. Eu tenho que ficar pensando, pensando, pensando de novo sobre o assunto... Aí concluo: essa característica – a resiliência – faz todo sentido num mundo em que uns querem (ou precisam, ou aprendem que precisam) devorar os outros. Se não destruo meu oponente, preciso, ao menos, imobilizá-lo. Num mundo ganha perde, em que trabalhar em equipe é juntar-se a alguns para derrotar outros, ser resiliente é questão de sobrevivência.
Confesso que tal característica faz bem pouco sentido para mim. Eu insisto em acreditar num mundo onde os mais fracos podem e devem ser protegidos e amparados. Onde nossas diferenças são nossas maiores forças. Onde é possível sermos liderados por Deus em favor do bem comum, mesmo diante das maiores adversidades, mesmo quando estamos perdidinhos da silva. Aliás, especialmente nesses casos. 

PELO VOO DE DEUS QUERO ME GUIAR
Jorge de Lima
Clique para ouvir:



Não quero aparelhos
para navegar.
Ando naufragado,
ando sem destino.
Pelo voo dos pássaros
Quero me guiar.
Quero Tua Mão
Para me apoiar,
pela Tua Mão
Quero me guiar.
Quero o voo dos pássaros
Para navegar.
Ando naufragado,
ando sem destino,
quero Teus cabelos
Para me enxugar!
Não quero ponteiro
Para me guiar.
Quero Teus Dois Braços
Para me abraçar.
Ando naufragado,
Quero Teus Cabelos
Para me enxugar.
Não quero bússolas
Para navegar,
quero outro caminho
para caminhar.
Ando naufragado,
Ando sem destino,
Quero Tua Mão
Para me salvar.
LIMA, Jorge de. Obra poética. Rio de Janeiro: Getúlio Costa, 1950, p.276-277.

domingo, 9 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade

Acontece que todas as famílias têm suas histórias de almoços de domingo, de jantares e de festas. As verdades ditas e caladas; o choro; as brigas; o tio engraçadão. As brigas entre a prima mimada e a gordinha. As fofocas entre tias... O tio que toca um violão, desafinado, e a avó, cansada e tolerente das bobagens dos jovens. Afinal, os pais sempre nos perdoam e por nós são perdoados.
Nossos almoços de família, com farto macarrão, frango assado e maionese, muito barulho e choro, sempre vão dar algum tipo de saudade. Essas lembranças, para uns poucos inspirados, acabam por virar poesia. Mas acontece também de nossa saudade inventar jantares que juntem vivos e mortos, porque para a imaginação do poeta não existem limites.


A MESA
Carlos Drummond de Andrade

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E não gostavas de festa...
Ó velho, que festa grande
hoje te faria a gente.
E teus filhos que não bebem
e o que gosta de beber,
em torno da mesa larga,
largavam as tristes dietas,
esqueciam seus fricotes,
e tudo era farra honesta
acabando em confidência.
Ai, velho, ouvirias coisas
de arrepiar teus noventa.
E daí, não te assustávamos,
porque, com riso na boca,
e a nédia galinha, o vinho
português de boa pinta,
e mais o que alguém faria
de mil coisas naturais
e fartamente poria
em mil terrinas da China,
já logo te insinuávamos
que era tudo brincadeira.
Pois sim. Teu olho cansado,
mas afeito a ler no campo
uma lonjura de léguas,
e na lonjura uma rês
perdida no azul azul,
entrava-nos alma adentro
e via essa lama podre
e com pesar nos fitava
e com ira amaldiçoava
e com doçura perdoava
(perdoar é rito de pais,
quando não seja de amantes).
E, pois, tudo nos perdoando,
por dentro te regalavas
de ter filhos assim. . . Puxa,
grandessíssimos safados,
me saíram bem melhor
que as encomendas. De resto,
filho de peixe. . . Calavas,
com agudo sobrecenho
interrogavas em ti
uma lembrança saudosa
e não de todo remota
e rindo por dentro e vendo
que lançaras uma ponte
dos passos loucos do avô
à incontinência dos netos,
sabendo que toda carne
aspira à degradação,
mas numa via de fogo
e sob um arco sexual,
tossias. Hem, nem, meninos,
não sejam bobos. Meninos?
Uns marmanjos cinquentões,
calvos, vividos, usados,
mas resguardando no peito
essa alvura de garoto,
essa fuga para o mato,
essa gula defendida
e o desejo muito simples
de pedir à mãe que cosa,
mais do que nossa camisa,
nossa alma frouxa, rasgada. . .
Ai, grande jantar mineiro
que seria esse. . . Comíamos,
e comer abria fome,
e comida era pretexto.
E nem mesmo precisávamos
ter apetite, que as coisas
deixavam-se espostejar,
e amanhã é que eram elas.
Nunca desdenhe o tutu.
Vá lá mais um torresminho.
E quanto ao peru? Farofa
há de ser acompanhada
de uma boa cachacinha,
não desfazendo em cerveja,
essa grande camarada.
Ind’outro dia. . . Comer
guarda tamanha importância
que só o prato revele
o melhor, o mais humano
dos seres em sua treva?
Beber é pois tão sagrado
que só bebido meu mano
me desata seu queixume,
abrindo-me sua palma?
Sorver, papar: que comida
mais cheirosa, mais profunda
no seu tronco luso-árabe,
e que bebida mais santa
que a todos nos une em um
tal centímano glutão,
parlapatão e bonzão!
E nem falta a irmã que foi
mais cedo que os outros e era
rosa de nome e nascera
em dia tal como o de hoje
para enfeitar tua data.
Seu nome sabe a camélia,
e sendo uma rosa-amélia,
flor muito mais delicada
que qualquer das rosas-rosa,
viveu bem mais do que o nome,
porém no íntimo claustrava
a rosa esparsa. A teu lado,
vê: recobrou-se-lhe o viço.
Aqui sentou-se o mais velho.
Tipo do manso, do sonso,
não servia para padre,
amava casos bandalhos;
depois o tempo fez dele
o que faz de qualquer um;
e à medida que envelhece,
vai estranhamente sendo
retrato teu sem ser tu,
de sorte que, se o diviso
de repente, sem anúncio,
és tu que me reapareces
noutro velho de sessenta.
Este outro aqui é doutor,
o bacharel da família,
mas suas letras mais doutas
são as escritas no sangue,
ou sobre a casca das árvores.
Sabe o nome da florzinha
e não esquece o da fruta
mais rara que se prepara
num casamento genético,
Mora nele a nostalgia,
citadino, do ar agreste,
e, camponês, do letrado.
Então vira patriarca.
Mais adiante vês aquele
que de ti herdou a dura
vontade, o duro estoicismo.
Mas, não quis te repetir.
Achou não valer a pena
reproduzir sobre a terra
o que a terra engolirá.
Amou. E ama. E amará.
Só não quer que seu amor
seja uma prisão de dois,
um contrato, entre bocejos
e quatro pés de chinelo.
Feroz a um breve contato,
à segunda vista, seco,
à terceira vista, lhano,
dir-se-ia que ele tem medo
de ser, fatalmente, humano.
Dir-se-ia que ele tem raiva,
mas que mel transcende a raiva,
e que sábios, ardilosos
recursos de se enganar
quanto a si mesmo: exercita
uma força que não sabe
chamar-se, apenas, bondade.
Esta calou-se. Não quis
manter com palavras novas
o colóquio subterrâneo
que num sussurro percorre
a gente mais desatada.
Calou-se, não te aborreças,
Se tanto assim a querias,
algo nela ainda te quer,
à maneira atravessada
que é própria de nosso jeito.
(Não ser feliz tudo explica.)
Bem sei como são penosos
esses lances de família,
e discutir neste instante
seria matar a festa,
matando-te - não se morre
uma só vez, nem de vez.
Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
para serem longamente
reencarnadas noutro morto.
Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres.
Estamos todos como éramos
antes de ser, e ninguém
dirá que ficou faltando
algum dos teus. Por exemplo:
ali ao canto da mesa,
não por humilde, talvez
por ser o rei dos vaidosos
e se pelar por incômodas
posições de tipo gauche,
ali me vês tu. Que tal?
Fica tranquilo: trabalho.
Afinal, a boa vida
ficou apenas: a vida
(e nem era assim tão boa
e nem se fez muito má).
Pois ele sou eu. Repara:
tenho todos os defeitos
que não farejei em ti
e nem tenho os que tinhas,
quanto mais as qualidades.
Não importa: sou teu filho
com ser uma negativa
maneira de te afirmar.
Lá que brigamos, brigamos,
opa! que não foi brinquedo,
mas os caminhos do amor,
só amor sabe trilhá-los.
Tão ralo prazer te dei,
nenhum, talvez. . . ou senão,
esperança de prazer,
é, pode ser que te desse
a neutra satisfação
de alguém sentir que seu filho,
de tão inútil, seria
sequer um sujeito ruim.
Não sou um sujeito ruim.
Descansa, se o suspeitavas,
mas não sou lá essas coisas.
Alguns afetos recortam
o meu coração chateado.
Se me chateio? demais.
Esse é meu mal. Não herdei
de ti essa balda. Bem,
não me olhes tão longo tempo,
que há muitos a ver ainda.
Há oito. E todos minúsculos,
todos frustrados. Que flora
mais triste fomos achar
para ornamento de mesa!
Qual nada. De tão remotos,
de tão puros e esquecidos
no chão que suga e transforma,
são anjos. Que luminosos!
que raios de amor radiam,
e em meio a vagos cristais,
o cristal deles retine,
reverbera a própria sombra.
São anjos que se dignaram
participar do banquete,
alisar o tamborete,
viver vida de menino.
São anjos. E mal sabias
que um mortal devolve a Deus
algo de sua divina
substância aérea e sensível,
se tem um filho e se o perde.
Conta: quatorze na mesa.
Ou trinta? serão cinquenta,
que sei? se chegam mais outros,
uma carne cada dia
multiplicada, cruzada
a outras carnes de amor.
São cinquenta pecadores,
se pecado é ter nascido
e provar, entre pecados,
os que nos foram legados.
A procissão de teus netos,
alongando-se em bisnetos,
veio pedir tua bênção
e comer de teu jantar.
Repara um pouquinho nesta,
no queixo, no olhar, no gesto,
e na consciência profunda
e na graça menineira,
e dize, depois de tudo,
se não é, entre meus erros,
uma imprevista verdade.
Esta é minha explicação,
meu verso melhor ou único,
meu tudo enchendo meu nada.
Agora a mesa repleta
está maior do que a casa.
Falamos de boca cheia,
xingamo-nos mutuamente,
rimos, ai, de arrebentar,
esquecemos o respeito
terrível, inibidor,
e toda a alegria nossa,
ressecada em tantos negros
bródios comemorativos
(não convém lembrar agora),
os gestos acumulados
de efusão fraterna, atados
(não convém lembrar agora),
as finas-e-meigas palavras
que ditas naquele tempo ,
teriam mudado a vida
(não convém mudar agora),
vem tudo à mesa e se espalha
qual inédita vitualha.
Oh que ceia mais celeste
e que gozo mais do chão!
Quem preparou? que inconteste
vocação de sacrifício
pôs a mesa, teve os filhos?
quem se apagou? quem pagou
a pena deste trabalho?
Quem foi a mão invisível
que traçou este arabesco
de flor em torno ao pudim,
como se traça uma auréola?
quem tem auréola? quem não
a tem, pois que, sendo de ouro,
cuida logo em reparti-la,
e se pensa melhor faz?
quem senta do lado esquerdo,
assim curvada? que branca,
mas que branca mais que branca
tarja de cabelos brancos
retira a cor das laranjas,
anula o pó do café,
cassa o brilho aos serafins?
quem é toda luz e é branca?
Decerto não pressentias
como o branco pode ser
uma tinta mais diversa
da mesma brancura. . . Alvura
elaborada na ausência
de ti, mas ficou perfeita,
concreta, fria, lunar.
Como pode nossa festa
ser de um só que não de dois?
Os dois ora estais reunidos
numa aliança bem maior
que o simples elo da terra.
Estais juntos nesta mesa
de madeira mais de lei
que qualquer lei da república.
Estais acima de nós,
acima deste jantar
para o qual vos convocamos
por muito — enfim — vos querermos
e, amando, nos iludirmos
junto da mesa
                                                      vazia.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. 27. ed. Rio de Janeiro: Record, 1991. p. 76-86.

sábado, 8 de outubro de 2011

João Guimarães Rosa

Ao relembrar espaços e pessoas que passaram na minha vida, me parecem cenas de algum filme. Relembro, por exemplo, de uma tarde quando saí com tia Zilmar. Enquanto me vestia, ela perguntava: "Quer ir ao banheiro antes de sair?" Eu não queria, não. Mas quando chegamos ao ponto de ônibus (que ficava a umas cinco quadras da casa dela), me veio uma vontade incontrolável: "Quero fazer xixi..." Tia Zilmar zangou: "Filha, eu não te perguntei várias vezes se queria ir ao banheiro?!" E eu só arregalava meus olhos, muda... Tia Zilmar falou muito, muito mesmo, enquanto caminhávamos novamente até o banheiro de sua casa...
Naquele dia, visitamos tia Clélia. Tocamos a campainha e fomos recebidos pela sorridente dona da casa. Ela reparou que estávamos atrasadas e tia Zilmar começou a contar minha peripécia urinária, com um quê de indignação... Não consigo esquecer das gargalhadas delas, do rosto terno de tia Clélia e de um certo ar de solidariedade dela para comigo. Subimos a escadinha enrodilhada que nos levava até o hall, entramos pela sala e ali eu ganhei um daqueles pirulitos redondos, enormes, coloridos. Passei a tarde me divertindo com ele e com as cores que se desfaziam, sem dar a mínima atenção às conversas de minhas tias. Meu pirulito era mais colorido que as palavras.
Quando a gente é pequena, as histórias correm assim. É uma pena que um dia a gente é obrigado a crescer e a criar juízo, e as palavras passem, como em mágica, a fazer tanta diferença, e que ventos da vida arranquem de nossos cabelos a linda fita verde um dia neles inventada.


FITA VERDE NO CABELO (Nova velha história)
João Guimarães Rosa

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Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Daí, que, indo no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido, nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então ela, mesma, era quem se dizia: "Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou". A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
– "Quem é?"
– "Sou eu..." – e Fita-Verde descansou a voz. – "Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou."
Vai, a avó difícil, disse: – "Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe."
Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar apagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: –"Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo."
Mas agora Fita-Vede se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
–"Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!"
– "É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta...." – a avó murmurou.
– "Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados".
– "É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta..." – a avó suspirou.
– "Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?"
– "É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha...." – a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.
Gritou: – "Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!..."
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.

GUIMARÃES ROSA. Seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico por Beth Brait. 2. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988. p. 129-131.