segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Alberto Cardoso

Não é noite e eu já não tenho vinte e pouco anos. Não é noite e não já não vagueio pela cidade com Nilo, Débora e Jefferson (saudades muitas!). Não é noite e eu já nem estou diante de uma cerveja gelada numa noite curitibana. Não é noite, mas eu entro no Bar do Cardoso... Numa viagem no tempo, entro pela porta do hoje bem conservado prédio da UPE... Em lugar de armários, máquinas e burocracia, vejo mesas, cadeiras, fumaça no ar... Riso solto, num canto uns amigos cochicham, um casal se beija, artistas... Vamos entrando... E ao nosso encontro vem ninguém menos que o Cardoso! Ele vem sorrindo um riso aberto com seus olhos calejados de mundo. Nos leva a uma mesa e apresenta o filho que vai nos atender. Pedimos uma? Duas cervejas. Cardoso senta e Nilo invoca: “Um poema, Cardoso!”...
Voltei, Rio Marumbi,
pra lavar minhas mágoas
na pureza de tuas águas,
porque desde que parti
águas puras nunca vi.
Fui um pobre aventureiro
que partiu sem ter roteiro

Hoje o velho Cardoso singra os mares da minha imaginação na Poenau. Seus versos são sensuais, orgulhosos da beleza negra, orgulhosos de Morretes, do velho Nhundiaquara e do Marumbi. Seus versos são livres... Principalmente do discurso politicamente correto que hoje nos assombra. Palmas para ele, que ele merece!
REMEMORANDO
Alberto Cardoso
Clique para ouvir:


O pai, meu querido velho
(que saudade!)
Dorso castigado pelo sol
(o sol sempre castiga o dorso do pobre)
mãos calejadas de tanto cavar pão pra mim,
olhos cansados de tanto olhar
pra ver se a gente montava o matungo da sorte.
A gente não sabia,
A gente pensava que ele era bobo:
exigir tantas coisas
(e os brinquedos? E o Rio Marumbi?)
A gente não queria perder tempo com palmas,
lousas, letras ou lucros.
Agora, o bobo sou eu.
Uma vez de cada um
(que coisa bem feita!)

A mãe
(ah! A mãe!)
Sua máquina de fazer comida
parecia um unicórnio,
mas soltava fumaça por todos os lados,
deixando vermelhos os olhos da gente.
Depois, bem depois, meus olhos ficaram
vermelhos,
muito vermelhos,
seis vezes:
o pai, a mãe, três irmãos e um filho.
A lenha, verde-molhada, castigava os vivos
olhinhos
dos que seguravam o grito do estômago.
O lampião, a querosene, ampliavam as sombras,
formando fantasmas com sacos de sustos,
fazendo rilhar e bater os dentes de leite.
Como a mãe sabia fazer um remendo!
A roupa ficava novinha.
Doces, bolos, mata-fomes era com ela,
e distribuía para todos nós,
junto o amor,
tudo bem repartidinho.

Houve uma crise.
A Alemanha já nos fez passar mal
(costa-larga-danada).
Faltaram muitas coisas:
querosene
(só pra lampião),
açúcar e trigo
(só para os que entravam nas filas).
Balas e bolachas havia bastante,
mas a gente não tinha dinheiro,
só quando vendia ferro-velho
pro velho
do ferro-velho.
("le opprime souvent le faible").

O pai danou a plantar.
A Alemanha podia ficar mais braba
e cortar feijão e arroz,
o forte do pobre
(ainda é – até quando será).

CARDOSO, Alberto. Poenau: prosa e poesia. 2. ed. Curitiba: Palavra Mágica Cultura, 1988. p. 36-37.

2 comentários:

  1. Obrigado por dividir esta sua recordação do Velho Bardo!
    Abs
    Neto Megalopolitano
    giltoncardozo@yahoo.com.br

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    Respostas
    1. Eu é que agradeço a honra, Gilton. Veia me visitar mais vezes!

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