sábado, 1 de outubro de 2011

Jorge Guerreiro

Segundo consta na apresentação da obra Tempo de poesia, Jorge Guerreiro, além de poeta, foi pintor. A Biblioteca Pública do Paraná dispõe de dois exemplares da referida obra para empréstimo. Nela, constam ilustrações abstratas e 28 poemas, dentre os quais: João Porcalhão Só, Perguntas aos deuses carecas, Enquanto dormes, O grito. Quase todos a la Álvaro de Campos: amargurados, desiludidos. Brincando de faz de conta, apesar do título, não foge à regra, não é mesmo?

BRINCANDO DE FAZ DE CONTA
Jorge Guerreiro
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Vamos fazer de conta, amor?
Vamos brincar de amar?
Construir uma casinha de pedras,
Com quatro vassouras ao alto,
um plástico colorido no teto,
mesinhas, banquinhos, eu sei lá...
E na casinha de brinquedo,
uma caminha com uma boneca estática,
de olhos de vidro, fechados,
que ri, fala, chora e se cala
quando e como nós queremos...
Vamos fingir de maridos?

Eu o pai, tu a mãe
e a boneca a filha?
Faremos comidinhas com flores,
em panela de sonhos,
beberemos água por filtrar,
comeremos pétalas de rosas
e dormiremos sonhos azuis...

É tudo de mentirinha,
de faz de contra, só assim...
Não rias. Antes coloca
aquela margarida no teu cabelo.
Pega a cestinha dourada,
põe pedrinhas sob o seio
e vai ao verdureiro, à padaria,
porque eu estou na hora de...
bem, de chegar do trabalho.
Sou bancário organizado,
pago cheques de papel-jornal,
com cifrões, muitos cifrões,
no banco que não tem títulos
nem duplicatas vencidas ou a vencer.
Pago cheques com pedrinhas redondas,
mesmo a quem não conheço,
até a quem não tem conta.
Precisa? – Eu pago!
Tem demais? – Deposita!

Olha, amor: brrrre... brrrre... brrrre...

Estou chegando num Mustang azul-céu.
Chave na porta aberta,
pés na sala, aqui estou eu!
Não, não digas só "boa tarde, querido..."
Chega mais para perto. Dá-me um beijo
bem redondo, sonoro.
Depois eu te pergunto: – O que é o almoço?
Tu repondes: – Flores!...
Flores com salada de flores...
E a menina, como está?
Dormindo, comeu agora...

Esquece o aluguel, as prestações,
o vestido para a festa que vem
e senta-te ao meu lado,
coração junto, alma junta,
mãos juntas e brinquemos.
Tu serves-me pétalas vermelhas
no pratinho verde
e eu coloco em tua boca
o pólen perfumado do jasmim lilás.
Depois de três gargalhadas
e um copo de água, convencionamos: são horas de dormir.
Aí, as paredes nos faltam,
nossos pés ultrapassam as pedras,
saem do plástico, batem nas vassouras
e a casa cai...

Não fiques triste. Casa de mentirinha
reconstrói-se depressa...
E nós... nós voltaremos a fazer de conta
e a brincar de amar,
neste mundo que também é de mentirinha
e de faz de conta, mas que os homens
levam estupidamente a sério.
E em vez de flores comem vacas
e aves de bela plumagem
e inocentes peixes ridículos.
E em vez de água por filtrar
bebem pólvora em garrafas
de incríveis rótulos amarelos.
E em vez de velarem o sono
da boneca estática,
deixam os filhos crescer
como os lírios do fosso de Cagliostro.
E em vez de lhes darem mingau
de areia com açúcar-terra,
oferecem-lhes rodas de morte,
cigarros de alucinação e
um profundo aborrecimento e ódio.
Um mundo onde as casas caem
e raramente se reconstroem...
Um mundo onde o que precisa não tem
e o que tem a mais não deposita...
Onde as pedras são matrerial de construção
e as árvores matéria-prima...
E onde, para ser bom
é preciso estar morto.

GUERREIRO, Jorge. Tempo de poesia. São Paulo: Aquarius, 1978. p. 15-17.

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