terça-feira, 18 de outubro de 2011

Carlos Nejar

Me ocorre que é perfeito o casamento do poeta com a ceramista. Ela, meiga, doce, mãos fortes, capazes de imaginar o tudo que da argila pode sair, e, dando forma ao disforme, conforma um vaso, um prato, uma panela.
Ele, que tem ideias, sonhos e livros, escolhe palavras "como catando feijão" e, cozinhando-as, delas retira o melhor caldo. Ninguém os conhece. Não ganham dinheiro nem têm fama. Só têm o amor um do outro, e a esse amor se entregam com alma.
Dentro do ônibus, eles se beijam loucamente. Não há ninguém por perto. Ninguém os vê. Estão sozinhos com a argila e o sonho. Mas o beijo longo que se dão ressoa pelo ônibus inteiro e faz a água do chafariz subir mais alta, e as árvores florescerem, e as flores perfumarem o ar da Santos Andrade. A tarde desce calma. Já podemos voltar para nossas casas.

TUDO SE PERFAZ
Carlos Nejar
Clique para ouvir:


I
Se queres, não existo.
Nossas raízes
são o movimento.
Não posso te dar
senão os dias
que se exaurem conosco.

Deves ver, mensurar
alfabetos, desertos.
E ausência
é quanto peço.

Se queres, não existo.
Sou ancestral das pedras,
viajei ao início.

Entrei em ti, no caule
de existir.
Mas existir
é um lapso de paciência,
entidade sem Deus
que te vincou a mim.

II
Nossa família: as estações.
Nada sobra
do que julgam ser
as propriedades.

O corpo, a alma
apenas usufruto.
Também os meus deveres.

Só o amor é nosso.
E o soluço.

III
Sofri em mim, em ti.
Não cabe retrocesso.
O peso, a pedra, a dor
e o limite tão forte
que nos salva.

Mesmo se a morte erra,
o amor acerta
e em flor nos ultrapassa.

Sofri, hei de sofrer.
Mas qual o sexo
que a dor nos apresenta,
qual o nexo
de suas oferendas?

Quando vimos,
éramos caminhos.
Temos de transitá-los
ou cindi-los.

Por que não – peremptórios ,
de mãos dadas –
ao sol que nos agrava?

Entretanto o amor
só tem a forma humana.
A dor conforme,
desconforme,
com terra de ninguém
por território.

IV
Devo eu dividir o amor em partes
ou dividir-me nele, compungido
nos dias que me cabe não retê-lo.
Desterrá-lo de mim como um gemido
nas cordas de teus olhos, teus sentidos.

Depois ruir a dor, ruir a espera,
no que de espera, as coisas se entreabriram,
viram adultas esta deferência
de tudo andar na dor e no sigilo.

E Deus aparecer e se ocultar
quando o chamei de súbito.
Deus lutar comigo – nós ferozes,
amigos, inimigos. Nós, as vozes
que podem ecoar, se vibram juntas,
na lona de outras vozes, no manejo
de sombras e marujos.

Devo eu dividir com a volúpia,
a vintena, o disfarce dos deveres.
Mas o amor me reconhece, me fareja,
persegue o foragido.

Devo eu dividir. E que metade
saberá de sua outra? Que metade
será a corruptível, obstinada,
enquanto a seu revel, a parte pura
irá pôr-se de armas.

Devo eu dividir o amor em partes,
que o todo me refuta: vilipêndio
de augúrios e vínculos.
Solvida a ventania, designamos
o amor resistente, renitente.
Solvida a ventania, somos mares.
Solvido o mar, a praia em toda parte.

V
Não sei até onde enterrar
o amor, enterrar-me
no amor, desenterrar-me
dele e refazer depois
as noites sem revê-lo.

Não sei. Forças acodem
ou por elas perpassa
o seu tropel. O dia
é necessário. E somos
resistentes, solidários.

Tudo se perfaz, doendo,
com o mais raro apelo.
Tudo age mudando, indo
a outro amor que insiste
em ser eterno.

VI
Sei que amo
antes das coisas existirem.

A vida me define
e eu decido, existindo.

Não sei o que me fica
ou ficando, sobrepõe-se
ao desígnio.

Muito antes
de me escolher, banindo.

Sei que amo
e tudo acontecendo,
indo, vindo.

VII
Perfilhei a solidão
de estar em mim,
em ti
e nunca estar.

Perfilhei este amor,
o universo
e por haver pactuado,
Deus é um verso estreito.

Assumi teu esforço
ao lado meu,
para o poder achar
quando me esqueço.

Assumi a levedura,
o fogo.
E me banhei duas vezes
no mesmo corpo.

VIII
A batida do sino,
a batida da noite.

Não sei se persigo
a batida do sino.

O meu corpo no teu:
A sacada do sino.

O meu corpo no teu,
sempre a estibordo,
a batida do gongo.

O meu corpo no teu,
clarinete tocando.

Na fachada da lei
a batida do corpo.

O rei morto, rei posto
no badalo do osso.

A batida do sino,
o revoo do pacto
no sangue. O rebordo.

A batida do cão,
o seu casco de fogo.

A batida do cão,
o reino partilhado.

Na seteira do sino,
o amor redimido.

A batida do cão,
a cancela do sino.

NEJAR, Carlos. Fogo da consciência. In: Carlos Nejar – Três livros. Rio de Janeiro: Círculo do Livro, s.d. p.123-129.

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