quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Cassiano Ricardo

Meus irmãos, iguais a todos os outros meninos, jogavam bola. Lembro da praça de terra batida, do sol, dos piás correndo, da poeira. Descalços mesmo, até que chegou o tempo do Kichute. Quase sempre voltavam escuros: tinta feita de poeira e suor... Narrando cada gol, cada jogada, rindo. Às vezes, a narrativa era de alguma catimba - sempre revidada, é claro.
[Eu não via graça no futebol, mas bem que queria poder sair. Mas menina, não; menina brincava dentro de casa.]
Mas tinha dias diferentes, quando os dois voltavam sem bola, indignados, calados ou falando baixo. Tomavam banho. Clima pesado. E às cinco da tarde, quando a sirene da Rede tocava e meu pai chegava do trabalho, eu já sabia que algum vizinho viria bater palmas lá na frente, e minha mãe iria atender, e eu ouviria: "Ó Dona Amélia, posso falar com o seu Waldir?" Huuuum... Podia ser uma mãe reclamando que o filho tinha apanhado de meus irmãos. Aí meu pai desconversava, "que menino briga mesmo". Mas entrava na sala falando grosso com os dois, já assustados: "Vocês apanharam? Apanharam, heim? Por que se apanharam na rua, vão apanhar de novo!" É claro que eles nunca apanhavam, não é?
Também podia ser um vizinho reclamando de vidraça quebrada... Aí a coisa pegava...
Sabe, gente? Eu descobri que Martim Cererê morava lá em casa.

MARTIM CERERÊ, JOGADOR DE FUTEBOL
Cassiano Ricardo

Clique para ouvir:


O pequenino vagabundo joga bola
e sai correndo atrás da bola que salta e rola.
Já quebrou quase todas as vidraças,
Inclusive a vidraça azul daquela casa
onde o sol parecia um arco-íris em brasa.
Os postes estão hirtos de tanto medo.
(O pequenino vagabundo não é brinquedo...)

E quando o pequenino vagabundo
cheio de sol, passa correndo entre os garotos,
de blusa verde-amarela e sapatos rotos,
aparece de pronto um guarda policial,
o homem mais barrigudo deste mundo,
com os seus botões feitos de ouro convencional,
e zás! carrega-lhe a bola!
“Estes marotos
precisam de escola...

O pequenino vagabundo guarda nos olhos,
durante a noite toda, a figura hedionda
do guarda metido na enorme farda
com aquele casaco comprido todo chovido
de botões amarelos.
E na sua inocência improvisa os mais lindos castelos;
e vê, pela vidraça,
a lua redonda que passa, imensa,
como uma bola jogada no céu.
“É aquele Deus, com certeza,
de que a vovó tanto fala.
Aquele Deus, amigo das crianças,
que tem uma bola branca cor de opala
e tem outra bola vermelha cor do sol;
que está jogando noite e dia futebol
e que chutou a lua agora mesmo
por trás do muro e, de manhã, por trás do morro,
chuta o sol...

4 comentários:

  1. heheh que saudades da sua voz, amiga!!!!
    E ouvi-la, assim, entrelaçada e dando mais vida às palavras...nossaaa é bom demais.
    Parabéns...

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  2. Costumo ler esse texto aos alunos.
    Gosto muito dos escritos de Cassiano Ricardo

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  3. lindo poema, ,mostra a toda a sensibilidade do autor, a primeira vez que o li eu tinha apenas 10 anos, hoje tenho 32 e nunca mais esqueci !!!!

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