quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Cora Coralina

Estou tão cansada que nem consigo ler poesia com paixão. Estou cansada... Preciso do sono, do sonho para sonhar com uma lua, com uma lágrima, umas visões de qualquer coisa que me inspire, e que me envie para o mundo onde é possível ler poesia. 
Estou cansada, cansada... Tão cansada que quase escrevo cansada com ç. Mas há aquelas coisas que se precisa fazer na hora. E esta postagem é uma delas. Na aula de Metodologia do Ensino de História o professor citou esse poema. Precisava compartilhar com vocês ainda hoje. E vamos logo que quase vira o dia...


A ESCOLA DA MESTRA SILVINA
Corta Coralina

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Minha escola primária...
Escola antiga de antiga mestra.
Repartida em dois períodos
para a mesma meninada,
das 8 às 11, da 1 às 4.
Nem recreio, nem exames.
Nem notas, nem férias.
Sem cânticos, sem merenda...
Digo mal — sempre havia
distribuídos
alguns bolos de palmatória...
A granel?
Não, que a Mestra
era boa, velha, cansada, aposentada.
Tinha já ensinado a uma geração
antes da minha.

A gente chegava "— Bença, Mestra."
Sentava em bancos compridos,
escorridos, sem encosto.
Lia alto lições de rotina:
o velho abecedário,
lição salteada.
Aprendi a soletrar.

Vinham depois:
Primeiro, segundo,
terceiro e quarto livros
do erudito pedagogo
Abílio César Borges —
Barão de Macaúbas.
E as máximas sapientes
do Marquês de Maricá.

(...)

Num prego de forja, saliente na parede,
estirava-se a palmatória.
Porta de dentro abrindo
numa alcova escura.
Um velhíssimo armário.
Canastras tacheadas.
Um pote d'água.
Um prato de ferro.
Uma velha caneca, coletiva,
enferrujada.
Minha escola da Mestra Silvina...
Silvina Ermelinda Xavier de Brito.
Era todo o nome dela.

Velhos colegas daquele tempo,
onde andam vocês?

(...)

E faço a chamada de saudade
dos colegas:
Juca Albernaz, Antônio,
João de Araújo, Rufo.
Apulcro de Alencastro,
Vítor de Carvalho Ramos.
Hugo das Tropas e Boiadas.
Benjamim Vieira.
Antônio Rizzo.
Leão Caiado, Orestes de Carvalho.
Natanael Lafaiete Póvoa.
Marica. Albertina Camargo.
Breno — "Escuto e tua voz vai
se apagando com um dolente ciciar
de prece".

(...)

E a Mestra?...
Está no Céu.

CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. 16. ed. São Paulo: Global, 1990.

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