sábado, 15 de outubro de 2011

Thiago de Mello

Costumo dizer que, uma vez professor, sempre professor. Não importa quanto tempo já estejamos fora de sala de aula ou se já exercemos, há muito, outra profissão. Não adianta; a docência se apega a nós de tal forma, que não perdemos nunca um certo jeito de falar, já meio que explicando, deixando transparecer nosso desejo de nos fazermos entender, e meio que sem querer nos metendo assim na vida dos outros, porque em sala de aula não tem essa coisa de "cada um que cuide da sua vida". Nem que a gente queira!
Comecei a dar aulas aos 20 anos. Era uma menina falando a outros meninos. Errei muito, e como eu gostaria de dar Ctrl + Z na vida para poder voltar atrás e refazer muitas coisas, e não fazer outras tantas. Infelizmente, não é assim que funciona aqui no mundo real. E assim seguimos carregando uma bagagem de arrependimentos mas, também e principalmente, de conquistas.
Recebi a graça de ser professora de gente que aprendeu (um pouco comigo também) a amar o texto escrito, a boa fala, a leitura envolvente. Essas são as maiores conquistas que levo comigo. Os erros que cometi, eu os conheço tão bem! A única certeza que tenho é que iguais a eles não voltarei a cometer.
Sei que é assim para muitos dos amigos professores que hoje me leem. O salário pode não ser lá essas coisas; os alunos nem sempre nos distinguem com o respeito que merecemos; e a escola, quantas vezes burocratiza nosso desempenho! Entretanto, professores, prosseguimos...

CANÇÃO PARA OS FONEMAS DA ALEGRIA
Thiago de Mello
A Paulo Freire

Clique para ouvir:



Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente.

Sucede que só sei dizer amor
quando reparto o ramo azul de estrelas
que em meu peito floresce de menino.

Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,

e poder ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas

são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis girando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa.

Às vezes nem há casa: é só o chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:

porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,

e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão

que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que paga por ser homem,
mas o modo de amar – e de ajudar
o mundo a ser melhor. 



Peço licença
para avisar que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:

ele atravessa os campos espalhando
a boa-nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte

contra o bicho de quatrocentos anos,
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura.

Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:

canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.

MELLO, Thiago de. Faz escuro mas eu canto: porque a manhã vai chegar. 23. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009. p. 35-36

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