terça-feira, 11 de outubro de 2011

Eduardo Alves da Costa

Voltei à vida. Tenho podido estar mais com minha família, e serena (essa tem sido uma grata surpresa). Tenho redescoberto a ternura de estar com meu marido. Tenho conseguido conversar um pouquinho mais com Gabriela e Ana. Há algo de restituição nesses meros atos cotidianos. Nesse tempo, vou reaprendendo que os membros de minha família mais próxima me amam, e merecem meus agradecimentos, porque me suportam sempre, especialmente em tempos duros. Me parecem tempos de corrigir injustiças, penso.
A beleza desse novo tempo também tem me devolvido a possibilidade de viajar por Curitiba comigo mesma. Nesses passeios, adoro entrar nos sebos – são vários – e encontrar algumas boas pechinchas de livros, e outros diante dos quais, embora custem muito para mim, na atual circunstância, eu penso: Puxa, por esse livro eu quero pagar esse preço...
E numa dessas minhas andanças, lendo a apresentação de um livro chamado No caminho, com Maiakóvski (poesia reunida), descubro que o poema que dá nome ao livro não foi, não, escrito por Bertold Brecht e nem por Maiakóvski (como tantas vezes já li por aí, inclusive em bons livros didáticos). Na verdade, seu autor é o brasileiríssimo e quase desconhecido niteroiense Eduardo Alves da Costa.
Tamanha injustiça já foi corrigida algumas vezes por ninguém menos que Mino Carta, Henfil e Manoel Carlos – mas eu não posso resistir e resolvo gravar o poema por aqui também, para engrossar o caldo com eles. Afinal esses tempos, me parece, são bons tempos para corrigirmos pequenas e grandes injustiças.

NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI
Eduardo Alves da Costa
Clique para ouvir:



Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski – poesia reunida. São Paulo: Geração Editorial, 2003. p. 47-49.

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