domingo, 23 de outubro de 2011

Ferreira Gullar

Minha gata é psicoterapeuta. Também estou certa de que lê pensamentos. Não sei por que razão tornou-se muda, mas é certo que já falou algum dia. Ou algum dia vai falar...
De manhã, quando abro meus olhos e me mexo um pouco na cama, ela sobe pelas cobertas (bem de mansinho), e vem chegando (bem de mansinho) para me acordar. Depois, vai como que me conduzindo até a lavandeira (bem de mansinho), olha para mim para certificar-se de que a estou seguindo... Leva-me até os potinhos de água e de comida, e pede que eu os troque e reabasteça: "Dá para trocar minha areia? E  meu potinho de comida? Está sujo..."
Em tempos difíceis, ela foi a companhia perfeita e me restaurou a alegria. Não que os humanos não estivessem por ali, mas nossa amizade foi mais intensa e tomou rumos de amor incondicional. Quando veio morar conosco, ela era ainda um bebê e mamava na chuquinha. Ficava no meu colo todo tempo. Ela cresceu e eu até aprendi a aceitar seu terrível instinto de arranhar os móveis e escalar cortinas. Em nossos amigos, aprendemos a apreciar até os defeitos!
É engraçado quando ela fica "de mal" comigo. Não "conversa", fica lá num canto, bem longe de mim, de preferência em outro cômodo do apartamento. Mas isso só acontece se eu dou bronca, e dura até que eu  procure por ela e peça desculpas num chamego.
Às vezes diz coisas que não compreendo. Insiste em me chamar, pede que a siga. E quando desisto de tentar entendê-la (nem sempre consigo compreender as mensagens), ela começa a arremessar objetos de sobre as estantes.
Nestes dias de blogueira, está sempre comigo, ali sobre minha cama, e me observa escrevendo. Se demoro muito, entra na frente do teclado e começa a mordiscar minha mão. Ela sabe das outras exigências da vida.

LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS

Ferreira Gullar
Clique para ouvir:


Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade

O tempo fora
de mim
é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
— dura eternamente
enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)

GULLAR, Ferreira. Muitas vozes: poemas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999.


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