quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Casimiro de Abreu

Foi num certo baile do RU – para juntar fundos para a campanha do DCE, da chapa O pulso ainda pulsa, que eu e o Manfred começamos nossa louca, louca história de amor. Mas não temos exclusividade nisso, a literatura nos mostra. Parece que sempre foi assim. Num baile, Mr. Darcy começa a descobrir os encantos de Miss Elisabeth Beneth. Num baile, o Fantasma da Ópera aparece diante de todos e rapta Christine. Num baile, ainda, a moreninha Carolina se reencontra com seu amor de infância, Augusto. E, claro, num baile Cinderela perde seu sapatinho exatamente à meia-noite, fugindo daquele que se tornaria o homem de sua vida. E vocês que me leem certamente lembram de outros tantos bailes, de Shakespeare a Lygia Fagundes Telles. Parece que os bailes foram e continuam sendo esses ambientes propícios às histórias de amor. Está bem que mudaram de nome; hoje se chamam baladas... Mas a palavra guarda semelhança, não? Na penumbra, as trocas de olhares entre as danças, o quero-não-quero, a dúvida, os ciúmes... Parece que também era assim no tempo do nosso bem comportado Casimiro de Abreu.

A VALSA
Casimiro de Abreu
Clique para ouvir:



Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranquila,
Serena,
Sem pena
De mim!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P'ra outro
Não eu!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem?!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,
— Eu vi!...

Calado,
Sozinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!
Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
 Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!

Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida
No chão!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!


ABREU, Casimiro de. Antologia da poesia romântica brasileira. São Paulo: Ibep, 2008. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário