domingo, 2 de outubro de 2011

Guilherme de Almeida

Na escola pública onde estudei durante todo o Ensino Fundamental, tive acesso a livros didáticos que traziam grande variedade de textos, de gêneros literários variados, alguns poucos jornalísticos, mas muitos, muitos poemas. Também se exigia de nós, alunos, que escrevêssemos de tudo... Isso pode parecer raso em nossos dias, mas na década de 1970 não era pouca coisa!
 Dentre os poetas mais citados na coleção (em momento oportuno citarei o nome dela), estava Guilherme de Almeida, "o príncipe dos poetas brasileiros". Lá estavam Prece a Anchieta, Se (tradução do original de Rudiard Kipling) e Esta vida... Como já havia dito ("quem tem ouvidos para ouvir, ouça!), memorizei e declamei tal poema para meus colegas de 8ª série. Que experiência marcante!
Esta vida mostra uma bela e inusitada variedade de vozes, como se fora uma "luta de classes" poética. A respeito da vida, falam o sábio, o monge, o mendigo e a mulher. Para o sábio, que representa o conhecimento, os avanços, as descobertas, a vida revela-se injustificável. A humanidade seria insignificante demais para valer a pena. Para o religioso, o fato de ser a vida um lapso ("somos como erva"), a vida se resumiria na morte. O pobre, por sua vez, representa os grupos sociais desprezados que, diante das mazelas da desigualdade social, desencantam-se, tornam-se amargos, desprezam a Deus e gritam o contrasenso: a vida é pão envenenado. A mulher simboliza a simplicidade da vida no seio familiar. Ela chama o poeta para para o refúgio interior, chama ao carpe diem... É o discurso do afeto e do o acolhimento que daria, nessa visão, sentido à vida.
 Tal poema cala fundo em mim ainda hoje; me identifico com tais falas, mais com uma, menos com outras. Por isso, talvez, eu tenha aprendido a gostar. Espero que vocês também gostem!

ESTA VIDA
Guilherme de Almeida
Clique para ouvir:

Um sábio me dizia: esta existência
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.

Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um monge me dizia: Ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande cousa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes; quase sempre, o pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida.
Quatro círios acesos: eis a vida.

Isto me disse o monge e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um pobre me dizia: para o pobre
a vida é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus? Eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar, de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.

Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça;
cortinas muito brancas na vidraça,
um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!

Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.

ALMEIDA, Guilherme de. Meus versos mais queridos. Rio de Janeiro: Ediouro, 1988.

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