quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Henriqueta Lisboa

A vida corria meio solta, quase sem eira nem beira. Nada precisava fazer muito sentido. Eu podia fazer quase tudo, e quase tudo sem pensar. Já não era a aluna exemplar de sempre; a preocupação em agradar os professores já não ocupava mais meu tempo (o que quase me custou o diploma de Letras.) Ganhava a vida aos trancos e barrancos, como professora, mas dava para comer no RU.
Até que num belo dia do ensolarado abril de 1992, depois de algumas fortes desconfianças, confirmei: havia gente pequenininha dentro de mim. Um alguém que eu ainda não conhecia, mas já amava por inteiro.
Anunciei aos quatro ventos. Diante da notícia, reações. Alguns amigos muito especiais passaram a cuidar de mim com zelos incríveis... Andrea e Eugênio, por exemplo. Como eu poderia esquecer? Tiravam fotos de minha barriga crescente e me levavam a lugares especiais para comer coisas que antes eu nunca tinha experimentado. Foi a primeira vez que comi uma empada do Caruso, por exemplo.
Também houve reações nada simpáticas. Uma tia: "Mas foi arrumar para sua cabeça, hem?" Uma amiga da família: "Foi arrumar chifre em cabeça de cavalo?" A coordenadora da escola onde trabalhava: "Você terá, mesmo, essa criança?" A jovem senhora fez questão de frisar que as mulheres podem escolher se serão ou não mães do filho que já esperam. E fechou sua fala com uma declaração que até hoje ressoa em minha mente: "Quando seu filho estiver com cinquenta anos, você ainda será mãe dele. Essa é uma escolha para toda sua vida." Eu, então, fiz minha escolha.
Escolhi ser mãe daquela garotinha para o resto de minha vida. Escolhi conhecer aquela pessoinha que já nasceu cheia de vontades e geniosa até o último fio de cabelo. Aliás, com quanto cabelo ela nasceu... E quando olhei pela primeira vez para aquele rosto, com um nariz igual ao do pai dela, eu disse: "Essa é a  minha Ana Heloísa."
Mas não era, não! Ana nasceu do meu ventre, mas tem o mundo na cabeça. E ainda me chamará de mãe quando completar noventa anos... Falará de mim aos meus netos! Sabe, isso não me assusta nem um pouco! Ana segue tranquila seu destino, mas eu sei que Deus tem planos a respeito dela. Imagino que para muito além dos cinquenta anos! Ufa... Ainda bem que eu não os interrompi.

PS: Este post nasceu de uma provocação (quem tem ouvidos para ouvir, ouça). A Aninha ficou com ciúmes da Aghata e disse que eu devia escrever um post para ela. Bom, ei-lo aqui...


A MENINA SELVAGEM
Henriqueta Lisboa
Clique para ouvir:



A menina selvagem veio da aurora
acompanhada de pássaros,
estrelas-marinhas
e seixos.

Traz uma tinta de magnólia escorrida
nas faces.
Seus cabelos, molhados de orvalho e
tocados de musgo,
cascateiam brincando
com o vento.

A menina selvagem carrega punhados
de renda,
sacode soltas espumas.
Alimenta peixes ariscos e renitentes papagaios.
E há de relance, no seu riso,
gume de aço e polpa de amora.

Reis Magos, é tempo!
Oferecei bosques, várzeas e campos
à menina selvagem:
ela veio atrás das libélulas.

LISBOA, Henriqueta. Lírica. 1958.

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