sábado, 8 de outubro de 2011

João Guimarães Rosa

Ao relembrar espaços e pessoas que passaram na minha vida, me parecem cenas de algum filme. Relembro, por exemplo, de uma tarde quando saí com tia Zilmar. Enquanto me vestia, ela perguntava: "Quer ir ao banheiro antes de sair?" Eu não queria, não. Mas quando chegamos ao ponto de ônibus (que ficava a umas cinco quadras da casa dela), me veio uma vontade incontrolável: "Quero fazer xixi..." Tia Zilmar zangou: "Filha, eu não te perguntei várias vezes se queria ir ao banheiro?!" E eu só arregalava meus olhos, muda... Tia Zilmar falou muito, muito mesmo, enquanto caminhávamos novamente até o banheiro de sua casa...
Naquele dia, visitamos tia Clélia. Tocamos a campainha e fomos recebidos pela sorridente dona da casa. Ela reparou que estávamos atrasadas e tia Zilmar começou a contar minha peripécia urinária, com um quê de indignação... Não consigo esquecer das gargalhadas delas, do rosto terno de tia Clélia e de um certo ar de solidariedade dela para comigo. Subimos a escadinha enrodilhada que nos levava até o hall, entramos pela sala e ali eu ganhei um daqueles pirulitos redondos, enormes, coloridos. Passei a tarde me divertindo com ele e com as cores que se desfaziam, sem dar a mínima atenção às conversas de minhas tias. Meu pirulito era mais colorido que as palavras.
Quando a gente é pequena, as histórias correm assim. É uma pena que um dia a gente é obrigado a crescer e a criar juízo, e as palavras passem, como em mágica, a fazer tanta diferença, e que ventos da vida arranquem de nossos cabelos a linda fita verde um dia neles inventada.


FITA VERDE NO CABELO (Nova velha história)
João Guimarães Rosa

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Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Daí, que, indo no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido, nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então ela, mesma, era quem se dizia: "Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou". A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
– "Quem é?"
– "Sou eu..." – e Fita-Verde descansou a voz. – "Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou."
Vai, a avó difícil, disse: – "Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe."
Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar apagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: –"Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo."
Mas agora Fita-Vede se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
–"Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!"
– "É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta...." – a avó murmurou.
– "Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados".
– "É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta..." – a avó suspirou.
– "Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?"
– "É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha...." – a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.
Gritou: – "Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!..."
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.

GUIMARÃES ROSA. Seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico por Beth Brait. 2. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988. p. 129-131.

Um comentário:

  1. Tirzá, querida!!! Eu leio o que escreve e depois me deparo com três quadradinhos solicitando que eu indique minha reação... Penso, olho, analiso... mas sempre chego a mesma conclusão: minhas reações não cabem nelas... Parabéns pelo blog! Adorei passar um tempinho por aqui... bjos

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