segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Adélia Prado

Às vezes eu fico me perguntando por que é tão fácil encontrar um poema triste, e tão menos fácil encontrar um poema engraçado. Mesmo os poemas de amor e os satíricos têm um quezinho de dor e de amargura. Concluo precipitadamente que é porque os poetas estão tão antenados com a vida ao redor deles que aquilo por que nós, mortais, passamos "assim" sem nem notarmos, aquilo que vemos e não nos toca, chega ao coração do  artista rugindo, rompendo, doendo... E tamanho força os impele a criar.
Lembro de Vinícius: "É melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração... Mas pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza se não não se faz um samba, não..." Parece que se não conseguirmos olhar o mundo e sermos tocados por ele fica impossível fazer poesia.
Acontece que poesia também não se faz somente de olhar o mundo. Existe algo mais, um quase ser arrebatado por pensamentos, por ideias, por reflexões, um inconformismo produtivo que leva o poeta para muito além, diversas estações adiante de nós. Adélia Prado diz: "A poesia aponta para o mesmo lugar para onde a fé nos leva. São experiências de natureza comum. Tanto é verdade que a linguagem é a mesma. Os textos místicos são paradoxos, falam por metáforas, porque falam do indizível. A poesia é a mesma coisa, e por isso o absurdo da linguagem poética, sua falta de lógica racional, sua obediência única ao estatuto interno da expressão (PRADO, Adélia. O Pelicano. Rio de Janeiro: Record, 2007.).
Para mim, a experiência com a poesia é mesmo como a experiência religiosa; ambas são tristes, porque solitárias, porque dizendo do indizível nos tornam, de certa forma, incomunicáveis no império do saber dizer em que vivemos.


A CÓLERA DIVINA
Adélia Prado


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Me deixo estar inerte,
porque não há em mim qualquer coragem.
Não posso ter, nem ser,
nem morrer, nem viver,
não posso entrar nem sair.
Clamo por Deus e Ele me devolve ao tempo,
às notas fiscais que
– por ordem do governo –
devo exigir dos maus negociantes.
Por que todo este peso sobre mim?
Não quero ser fiscal do mundo,
quero pecar, ser livre,
devolver aos ladrões
sua obrigação com os impostos.
Tudo me está vedado,
não há lugar para mim,
parece que Deus me bate,
parece que me recusa,
pedir auxílio é pecar,
não pedir é loucura,
é consentir no auxílio do diabo.
Quem é o estranho a quem chamo de Jonathan?
Por Deus, quem sou?
Escorpião está no céu,
em dias felizes eu faria um verso:
‘brilho de escorpião na friagem da noite’.
Soa agora como bajulação à divindade,
A fala de um mentiroso,
de um falastrão covarde.
Não ireis acreditar
– se pensáveis que líeis um poema –
alguém me entrega uma carta:
“eu agora coloquei dentes,
estou mais jovem,
só a canseira de velho continua”.
O terror sumiu,
porque ao reproduzir-vos a carta
corrigi duas palavras
e não há quem às portas do inferno
socorra-se das gramáticas.
Portanto, um poder novo me salva,
uma compaixão,
que usa as constelações e os correios
e a mesma língua materna
que me ensinou a gemer.
O Misericordioso pôs nos ombros
sua ovelha mais fraca.
PRADO, Adélia. O pelicano. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 53-54.

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