terça-feira, 25 de outubro de 2011

Manoel de Barros

Meus irmãos iam toda tarde para aquele lugar chamado escola. Depois do almoço, vestiam seus aventais brancos, pegavam suas malinhas cheias de livros, cadernos e lápis e iam. Eu ficava só olhando, curiosa... Quando voltavam daquele lugar misterioso, abriam cadernos e livros, pegavam lápis coloridos e ficavam debruçados sobre a mesa, escrevendo e desenhando. A coisa era séria! Eu era enxotada dali se fizesse barulho ou mexesse nos materiais. Na minha fantasia a escola era um lugar iluminado e alegre, onde crianças com aventais branquinhos passavam o dia riscando papéis.
Um belo dia, tive uma ideia: vesti um avental branco já pequeno para meus irmãos, enchi uma sacola com uns papéis e decidi: também vou para a escola! Quando meus irmãos saíram, como se fosse simplesmente normal, lá fui eu atrás deles... Minha mãe achou que era brincadeira, pensou que eu voltaria para casa, e sorriu aquele riso de quem não está levando criança a sério. Mas eu continuei caminhando! Estava realmente decidida a ir para a escola.Ela me chamou, mas eu disse: Eu vou para a escola... Ela correu atrás de mim, me pegou no colo, mas  não desisti de meu intento: esperneei o quanto pude... Eu precisava ir àquele lugar, minha gente! Lutei bravamente, mas a força de minha mãe me venceu. Dona Amélia me trouxe para casa e fechou a porta.
No dia seguinte, depois do almoço, adivinhem só... Coloquei o aventalzinho, peguei minha sacolinha... tsc, tsc, tsc... Não tenho outra lembrança de ver minha mãe brava comigo. Mas naquele dia eu consegui acabar com a paciência dela, que arrancou de mim o aventalzinho, rasgou-o em alguns pedaços, me olhou decidida e disse: "Pronto! Você ainda é muito nova para ir à escola".
Chorei muito... Mas aceitei que deveria esperar. E meu irmão mais velho, que me mimava o quanto podia,   resolveu que ia me deixar, sempre que eu quisesse, ficar do lado dele enquanto ele fazia as lições de casa.
quem um dia não se desesperou para ir à escola? Sonhamos tanto com esse lugar mágico, quando não o conhecemos. É quase como uma terra encantada. Depois que estamos nela, talvez alguns anos, meses, até mesmo dias, passamos a ansiar por deixá-la o mais rápido possível. É uma pena que seja assim.

SOBERANIA
Manoel de Barros
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Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

BARROS, Manoel de. Memórias inventadas - a terceira infância. São Paulo: Planeta, 2008.

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