quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Manuel Bandeira

Para não começar novamente falando de livro didático (que isso já virou um tipo de sina...), começo este post lembrando de meu velho amigo Eugênio Gielow, que sumiu no mundo e eu nunca mais vi (saudades imensas). Nos conhecemos em 1989, 1.º ano de Letras na UFPR, e estivemos juntos por muitos anos, fazendo muito trabalho de faculdade e falando muita bobagem. Não, bobagens não que Eugênio não era dado a isso.

De um desses trabalhos em especial me lembro com imenso carinho. Acho que porque foi o primeiro. Eugênio era ator e diretor de teatro, então com ele "tudo acabava em peça". Estávamos estudando Camões (deliciosas aulas da professora Ana Maria Filizola, inspiradora sempre!) e começamos a perceber que havia algumas temáticas do Gajo que conversavam com as do Bandeira... Seria somente coincidência? Desconfiamos e fomos à Biblioteca Pública pesquisar (realmente, eram velhos tempos aqueles; as pesquisas escolares aconteciam lá).

E não é que mexendo e remexendo nas estantes, catando tudo que havia sobre os dois poetas, nos caiu às mãos um exemplar corroído e fininho, de um estudo feito EXATAMENTE SOBRE INTERTEXTUALIDADES ENTRE AS OBRAS DE BANDEIRA E CAMÕES?!?

Tá bom, coincidência... "Sorte de principiante!" – alguns podem dizer... Não fôramos os primeiros... Não fôramos os descobridores... E embora já estívessemos desconfiados disso, confirmamos: não éramos gênios, mesmo... OK, mas nossa inteligência foi-nos suficiente para construir a fatídica peça de teatro. Nela, imaginamos os poetas encontrando-se num outro plano, declamando seus poemas em diálogos alucinantes...

Do dia da apresentação, lembro bem das tochas acesas no anfi do 10º andar, da escuridão, da fumaça, e de nós, ridiculamente embrulhados nuns lençóis como se fossem túnicas. Bandeira começava com Epígrafe, Camões nos falava de mudança... Cantaram a beleza de Rosa Francisca ("Ai, Rosa Francisca, me dá tua boca, dentuça e pequena, pequena e sabida..." e de Bárbara ("Pretos os cabelos, onde o povo vão perde opinião que os louros são belos...."), até que juntos chegaram a Pasárgada.

Éramos uns doidos inspirados... Que Deus assim nos conserve!

EPÍGRAFE
Clique para ouvir:



Sou bem-nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.

Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugiu como um furacão,

Turbou, partiu, abateu,
Queimou sem razão nem dó –
Ah, que dor!
Magoado e só,
– Só! – meu coração ardeu:

Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria...
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.
– Esta pouca cinza fria.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 15. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.

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