segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Marcus Accioly

Tem gente que acha que é teu amigo só porque um dia dividiu uma broinha mimosa contigo. Não sei, não... Amizade tem que passar pela prova de fogo das dores, e seu tempero só pega se ela ficar um tempo mergulhada na água do apreço e da admiração mútua, no vinagrete das brigas e das fraquezas de cada um. O amigo vai conhecendo tua história, teu passado. Pode até te criticar por ele, mas não te condena.
Os anos se passam e um dia você reencontra alguém. Se se emocionam, se abraçam, se olham com apreço sem desculpar-se pelo tempo decorrido, vocês são amigos. Se a pessoa até aperta tua mão, mas diz um olá sem brilho, a amizade nunca foi. Nesse caso, fica pairando no ar uma culpa e tudo o que queremos é fugir logo dali.
Isso acontece muito em tempos de Orkut, Facebook, Twitter. Quase todos os dias a gente reencontra um rosto das antigas e as reações são incrivelmente inusitadas: indiferentes, entusiasmadas, frias... Será que esperavam que você fosse alguém que já não é mais? Será que não desejavam encontrar ninguém daquele tempo? Será que algo ficou mal resolvido no passado? Nada disso importa, quando constatamos: aquilo não era amizade. Rola um certo luto, mas e daí? É como chorar por um morto desconhecido.
O mesmo acontece quando perdemos uma amizade por traição do amigo (coisa que amizade não suporta é traição ou sacanagem). Quem trai perde o amigo, mas não se lamenta, afinal fez uma escolha. Paciência. E o traído, em vez de ficar chorando as pitangas, que festeje: antes cedo do que tarde...
Amizade, mesmo, é entre crianças e passarinhos... que nos digam Leunam, Sucram e o guriatã. Amigos para galopar por aí. Amigos para nadar fundo no rio da vida. Amigos para serem irmãos. 
Amigos para juntos enfrentarem o papa-figo. Quem não quer um amigo assim?

DE UM GURIATÃ-DE-COQUEIRO 
Marcus Accioly
Clique para ouvir:


III
Guriatã-de-coqueiro,
quem você viu por primeiro,
o cavalo ou o cavaleiro,
responda, Guriatã?
- O cavalo de Sucram.
- Me diga, meu passarinho,
Sucram estavam sozinho,
me diga, Guriatã?

- Estava com seu amigo
porém corriam perigo
por causa do Papa-figo.
- Voe logo, Guriatã, vá avisar a Sucram
e Leunam, vá, minha ave,
senão não há quem se salve
da morte, Guriatã!

- Quando a vontade é de lei
é feito ordem de rei,
já fui, já disse e voltei.
- Espere, Guriatã,
peça a Leunam e Sucram
o fio inteiro da estória.
- Fui, vim, trouxe na memória.
- Me conte, Guriatã.

IV
Do que canta o Guriatã
- Eles moravam,
um do outro, na distância
que, não falhando a lembrança,
era um tiro de rifle,
e se avistavam
de perto ou de longe ainda,
como quem mora em Olinda
só vive vendo o Recife.

Os dois montavam
no alazão Ouro-Fino:
se indagava: "Esse menino
é irmão daquele de lá?"
Ou cavalgavam
um na garupa e um na sela:
"Sai da frente, abre a cancela,
que o cavalo quer voar".

Sempre caçavam:
"Meu cachorro Fede-e-Cheira
pedra de baliadeira
no papo do sabiá".
E atravessavam
de margem a margem de areia
o Siriji que na cheia
é rio de se afogar.

Sucram, o louro,
botava, no seu terraço,
letra em música de pássaro:
"Dó, ré, mi, sol, si, fá, lá".
Ambos, em coro, diziam, feito canção,
os romances do sertão
galopes da beira-mar.

Leunam, moreno-claro
fez com seu amigo
emboscada ou esconderijo
do dele e do seu tamanho,
pra no terreno
dos bambus do Siriji
os dois olharem dali
mulheres nuas no banho.

V
Dos dois amigos
Lá vai Sucram e Leunam,
que sempre vão sempre os dois:

- Ei, pastorador-de-gado,
que nomes têm os teus bois?

- Perguntem primeiro a eles
pra que eu diga depois.

- Perguntamos, nos disseram,
só falta agora saber,
pastorador, o teu nome
que boi nenhum quis dizer.

- Meu nome é não tenho nome,
me chamam por Sarará
Cravao Cancão Carinhoso
Cara-Preta Carajá
Manhoso Manso Mimoso
Satisfeito Simpatia
Ronceiro Ranço Rajado
Realejo Regalia
Afoito Agreste Africano
Primavera Piranji
Lerdo Luar Lavareda
Jaguaraba e Javali

Ai, pastorador-de-gado,
disseste o antes, depois:
chamas os bois por teu nome
e pelo teu nome os bois.

ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. 2. ed. Ilustrações de Dila. São Paulo: Melhoramentos, 1988.


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