quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Mário de Andrade

Eu fui a mais nova de sete filhos. Findo o ano letivo, como nenhum de meus irmãos costumava ter ciúmes de seus livros e minha diversão favorita era ficar horas folheando qualquer coisa que tivesse palavras, imagens e ideias, eu recebia o privilégio de ficar com todos aqueles livros para mim.

Dentre todos eles (imaginem só, as disciplinas escolares vezes sete!), lembro em especial de um livro de Comunicação e Expressão de meu irmão mais velho. A maioria dos textos que lia nesse livro, eu não entendia M-E-S-M-O... Mas me deleitava com algo neles, mesmo sem saber exatamente o que. Mais tarde, bem mais tarde, descobri que se tratava da música que todo texto tem. Sonoridade. Claro que também eram as ilustrações, ainda que naquele tempo os livros fossem impressos em preto e alaranjado. Do poema Profundamente, de Manuel Bandeira, lembro das bandeirinhas de Festa Junina que se espalhavam ao redor do texto, da fogueira, e de Totônio Rodrigues, Tomásia e Rosa de olhos fechados... Profundamente fechados.

Foi naquele livro que li pela primeira vez A Serra do Rola-Moça, de Mário de Andrade. Lia, lia, lia de novo, não entendia... Entendia as letras, sim, mas não o amor do moço pela moça: Será mesmo que ele se jogou atrás dela? Será que ele caiu sem querer? Será que os cascalhos já sabiam? E como podiam rir? E que seriam essas tribos rubras? Será que isso aconteceu de verdade? Será? Será? Aquele poema me perturbava, me entristecia e me precipitava em pensamentos.



A SERRA DO ROLA-MOÇA 
Mário de Andrade 


A Serra do Rola-Moça 
Não tinha esse nome não...


Eles eram do outro lado, 
vieram na vila casar. 
E atravessaram a serra, 
o noivo com a noiva dele 
cada qual no seu cavalo.
Antes que chegasse a noite 
se lembraram de voltar. 


Disseram adeus pra todos 
e se puserem de novo 
pelos atalhos da serra 
cada qual no seu cavalo.
Os dois estavam felizes, 
na altura tudo era paz. 
Pelos caminhos estreitos 
ele na frente, ela atrás. 
E riam. Como eles riam! 
Riam até sem razão.


A Serra do Rola-Moça 
não tinha esse nome não.
As tribos rubras da tarde 
rapidamente fugiam 
e apressadas se escondiam 
lá embaixo nos socavões... 
Temendo a noite que vinha.


Porém os dois continuavam 
cada qual no seu cavalo, 
e riam. Como eles riam! 
E os risos também casavam 
com as risadas dos cascalhos, 
que pulando levianinhos 
Da vereda se soltavam, 
Buscando o despenhadeiro.


Ali, Fortuna inviolável! 
O casco pisara em falso. 
Dão noiva e cavalo um salto 
precipitados no abismo. 
Nem o baque se escutou. 
Faz um silêncio de morte, 
na altura tudo era paz ... 
Chicoteado o seu cavalo, 
no vão do despenhadeiro 
o noivo se despenhou.


E a Serra do Rola-Moça 
Rola-Moça se chamou. 


ANDRADE, Mário. Mário de Andrade: literatura comentada. 3. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1990.

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