terça-feira, 4 de outubro de 2011

Mário Quintana

Daquela coleção de livros didáticos de que já falei para vocês, dentre muitas imagens, uma me persegue: uma boca de mulher com um ruge batom, em detalhe; ela segura uma maçã, igualmente vermelha, deliciosa... Não sei se já a mordeu ou se está prestes a fazê-lo, mas pouco importa. Porque nesse instante sou atraída para o poema para o qual foi feita a ilustração, e o leio... Quem diria, é Mário Quintana.

Incrível a capacidade de um pobre livro didático, daquelas coleções antigas, de despertar em nós o desejo pela literatura. Uma forma de paixão, uma forma de primeiro amor. Não pelas imagens somente, mas também através delas. Através, mesmo, para os puristas de plantão: afinal eu atravesso a imagem, a sua simbologia, os seus sentidos, e voando para muito além dela, num rasante, mergulho no poema que a acompanha.

DE GRAMÁTICA E DE LINGUAGEM
Mário Quintana
Clique para ouvir:



E havia uma gramática que dizia assim:
“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica
Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta”.
Eu gosto é das cousas. As cousas, sim!…
As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso.


As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém.
Uma pedra. Um armário. Um ovo. (Ovo, nem sempre,
Ovo pode estar choco: é inquietante…)
As cousas vivem metidas com as suas cousas.
E não exigem nada.
Apenas que não as tirem do lugar onde estão.
E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.
Para quê? não importa: João vem!
E há-de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,
Amigo ou adverso… João só será definitivo
Quando esticar a canela. Morre, João…
Mas o bom, mesmo, são os adjetivos,
Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.
Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. Luminoso.
Sonoro. Lento. Eu sonho
Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.
Ainda mais:
Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que tu lhe saibas o misterioso sentido:
Basta provares o seu gosto…


QUINTANA, Mário. Antologia poética. Seleção e apresentação: Walmir Ayala. Rio de Janeiro: Ediouro, 1989. p. 92.

Um comentário:

  1. Eu tinha a certeza que quando minha querida amiga Tirzá se decidisse por criar um blog, seria um "mega-super-hiper-blog" para enternecer nossos corações!!!!
    Obrigada!!!
    Beijos

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