quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Olavo Bilac

Em minha família, sofremos todos desse mal da tempestade que varreu nossas vidas de criança e adolescência com tragédias, perdas, dores e mágoas. E todos crescemos assim  meio magoados, afastados, isolados e tristes. É assim em relação aos primos, aos irmãos, aos tios.
Mas nesses tempos de redes sociais, reencontro primos e tios no Facebook. E adoro pensar que tenho lindas lembranças que eu queria compartilhar na forma de uma homenagem sincera a essa parte de minha família que pode parecer que eu esqueci. Mas isso seria simplesmente impossível porque esquecê-los seria esquecer o que de melhor eu tive, ainda que pouco, de infância feliz.
Quando me conheci por gente, só lembro que já tinha uma prima linda, loira, de olhos claros e voz macia, que era um poço de paciência e vivia inventando "modas". Lembro que queria ser como ela, suave e meiga. Eu era bem pequenininha, mas já percebia que ela era uma dessas mulheres que lideram, dessas que fazem o mundo girar. Aos meus olhos, Isabel Cristina era perfeita... Ela até conseguia fazer os meus dois irmãos brincarem de faz de conta! E tinha como que uma capacidade sobrenatural de fazer não somente nós três, seus primos, mas também todos os seus irmãos, nos mobilizarmos em torno de uma brincadeira, de um jogo, de um entretenimento qualquer, mas que certamente garantia diversão.
E Isabel Cristina tinha uma Susi! E bem escondidinho e de vez em quando, eu podia brincar com ela só um pouquinho. Vocês já sabem que eu fui uma menininha dengosa e chorona, dessas chatinhas. Mas essa minha prima tinha muita paciência comigo. Ainda consigo ouvir sua voz suave falando alguma palavra doce pra me consolar.
Certa vez ela fazia uma maquete com recortezinhos miúdos e colocava os bonequinhos de papel assim bem de pé, delicadamente, sobre um suporte de papelão. Eu achei aquilo tão lindo, mas tão lindo, e já imaginava umas historinhas naquele cenário, que comecei  chorar: "Eu quero fazer um igual, mas não consigo!" Para me consolar, Isabel Cristina disse: "Mas eu fiz pra você..." Eu engoli o choro e queria explodir de tanta felicidade pelo presente delicioso que acabara de ganhar.
Agora aos 42 anos percebo o tamanho da generosidade de minha prima preocupada em não ferir meu pequenino coração que tinha acabado de perder a mãe. Agora choro de novo, mas é de gratidão pelo carinho que recebi tão de graça e tão sem merecer.
Não era só a companhia de Isabel Cristina que me era cara. Ir para a casa da tia Catinha era tudo de bom, tudo de melhor, era como se fosse um mundo paralelo com direito ao cheiro de chá mate bem quentinho no inverno, sendo assoprado para mim, e um pão caseiro com margarina que eu nunca mais comi tão gostoso. Era paz, não tinha briga, as crianças podiam falar, a gente estava autorizado a inventar brincadeiras.
Era o melhor lugar do mundo a casa da tia Catinha. Ainda ouço meus primos e a voz da minha tia ralhando com a gente se aprontávamos alguma mais grave. E era uma delícia brincar com meus primos. Lembro de um dia quando fazíamos de conta que éramos Testemunhas de Jeová e evangelizávamos de porta em porta. Tempos modestos, aqueles.
Minha tia Catinha fotografava tudo. Fotografava sempre. Aliás, as duas fotografias de minha infância que eu mais amo foi ela quem tirou. Uma delas é essa fotinho aí do blog. Ela me deixou com uma ausência de tia que nunca foi preenchida. Aquele colo vasto, aquele abraço, ela secando minhas lágrimas e dizendo que "Ia guardar na blusa". Ah, como eu queria ser tia como a tia Catinha. A honra maior, agora, é que meu pai, senil, esquece meu nome difícil e me chama pelo nome de sua irmã: Aracati.
Tia Catinha era casada com o tio César, que eu A-D-O-R-A-V-A de paixão! Ele era divertidíssimo. Quando chegava em casa do trabalho, dizia para meu primo: "César Augusto, lave o meu pé, enxugue e guarde!!!" Era só gargalhada de criança pela sala. Piadinha de família, que só a gente que é família entende.
Tem muito causo e muita história. E essa parte de minha família mereceria uma outra postagem, com certeza. Mas por hoje, é o que consigo. E preciso dizer: essa minha família querida com quem convivi tão pouco, aprendi a amar do mais fundo de meu coração.

A PRIMAVERA
Olavo Bilac

Coro das quatro estações:
Cantemos! Fora a tristeza !
Saudemos a luz do dia:
Saudemos a Natureza !
Já nos voltou a alegria !

A Primavera:
Eu sou a Primavera!
Está limpa a atmosfera,
E o sol brilha sem véu!
Todos os passarinhos
Já saem dos seus ninhos,
Voando pelo céu.
Há risos na cascata,
Nos lagos e na mata,
Na serra e no vergel:
Andam os beija-flores
Pousando sobre as flores,
Sugando-lhes o mel.
Dou vida aos verdes ramos,
Dou voz aos gaturamos
E paz aos corações;
Cubro as paredes de hera;
Eu sou a Primavera,
A flor das estações !

Coro das quatro estações:
Cantemos! Fora a tristeza !
Saudemos a luz do dia:
Saudemos a Natureza !
Já nos voltou a alegria !
BILAC, Olavo. Poesias infantis. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1949.  

sábado, 26 de maio de 2012

Débora Siqueira Bueno

Quando pequenininha, sua marca registrada era um sorriso constante. Sorria sempre, sorria o tempo todo, sorria mesmo. Sorria. Simplesmente sorria. Espoleta, arteira e moleca, Gabriela não gostava de nada que a amarrasse, fossem roupas, sapatos, maria-chiquinhas ou paredes. Os brinquedos precisavam ser grandes, os espaços também. Chorei quando ela nasceu, num pressentimento incrível de que Gabriela seria uma filha boa e obediente, e que isso nos aproximaria de forma incrível. Acertei em cheio. No meio de sua agitação, tive a filha mais obediente e generosa que podia ter tido. Aliás, generosa em extremo! Nada que lhe pedissem ela conseguia negar. A melhor boneca, o melhor lápis... Generosidade cara, mas fazer o quê?
Numa de minhas madrugadas insones, Gabriela, já com uns 5 aninhos, acorda também e me pede à queima-roupa: "Mãe, me ensina a ler a Bíblia?" E eu, do alto de minha tolice, ensaio uma explicação pedagógica de que "esse não é o melhor livro para se aprender a ler, que precisava aprender com outros livros, para depois ler a Bíblia." Gabriela abaixa a cabecinha e o olhar, triste. Queria aprender a ler a Bíblia, ora bolas! Porque não tratei de ler para ela, um pedacinho de cada vez?
Sempre me questionava: "Mãe, como Deus fala com você e não fala comigo?" E eu orava, pedindo que a falta de fé não se abrigassse naquele coraçãozinho generoso e questionador. E foi numa manhã quase ensolarada que Gabriela acordou agitada e saltou sobre mim, na cama: "Mãe, Deus falou comigo hoje de noite!!" É mesmo, filha? E como foi isso?" "Ele tava sentado numa cadeira bem grande, e tinha um arco-íris em volta dele, e tinha um monte de espuma..." "É mesmo, filha? E o que foi que Ele te disse?" "Ele disse pra eu sempre ir na casa dele e sempre adorar ele..." E eu nem tinha lido a Bíblia pra ela ainda...
Esse acontecimento sempre vem à minha lembrança, em especial naqueles momentos em que nós aqui em casa estávamos longe de Deus e da Igreja, e a Gabriela simplesmente prosseguia no caminho, indo sozinha para a casa do Senhor, nunca questionando nada, simplesmwente obedecendo aquele chamado...
Aliás, por falar em chamado... Gabriela já foi uma Azaleia muito linda numa pecinha de teatro na Igreja. Totalmente preocupada em organizar as flores, nem conseguia ficar quietinha em seu lugar, como convém a uma flor; ia lá, arrumava a outra flor, voltava pro seu lugar; se alguém saía do lugar, ia até lá e arrumava de novo... Até hoje Gabriela é assim: Deus a plantou no jardim da minha vida quando era meio que um terreno quase baldio. E quando as coisas saem de foco, Gabriela vai lá, e com seu jeitinho especial, me ajuda a colocar cada coisa em seu devido lugar.
Naquela pecinha de Igreja, a Azaleia só tinha uma fala: "Chamado? E o que é chamado?"
Chamado é isso, minha Azaleia. Chamado é ter sido criado por Deus com um propósito. E obedecer ao teu chamado é fazer aquilo para que Ele te criou. Chamado é isso que você tem obedecido do alto de seus quinze anos.
Minha filhinha cresceu e todo dia me ensina uma lição. Vamos andando na vida, e ela me questiona de um jeito bom, que me convence a mudar. Gabriela preenche a casa. Ela faz, ela age, ela se responsabiliza. Gabriela independe. Ela segue seu caminho, sem se afetar com circunstâncias, parece até inatingível. Gabriela sofre, sim. Mas não faz drama. Gabriela se supera. Dona de sua vontade, ciente de seu talento. Gabriela não parece muito preocupada com o futuro. Ela simplesmente segue em frente. Crente convicta, segura, como somente quem crê num Deus real é capaz de crer.
Parece que Gabriela aprendeu cedo a ser forte. Desconfio: foi Deus que ensinou em segredo a ela essa lição, naquela noite de espuma e arco-íris. Gabriela sabe o que é estar diante do trono da graça de Deus.

Clique para ouvir:

A MINHA FILHA JUNTO DE MIM
Débora Siqueira Bueno

A minha filha junto de mim lê os meus sonhos.
Tento evitá-lo –
aquilo não é coisa pra criança.
Insiste.
– Credo, mãe! Isso não é sonho, é pesadelo!
Senta-se e escreve em meu lugar.

A minha filha junto de mim me junta a mim,
a desjuntada, me aconchega
e nina o desânimo em que me encontro.
Espanta o siso e abre o riso e fecha o livro
de onde brotam tais palavras mal escritas.

A minha filha junto de mim me traz de volta
ao mundo vivo em que pertenço a alguém
que me pertence e me
Escreve – filha –
palavra forte.
Inscreve – mãe –
me faz alguém.

A minha filha junto de mim sonha seus sonhos
E abre o livro vivo que há em mim.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

João Cabral de Melo Neto

Quando o Manfred viaja é sempre a mesma coisa: ou não pego no sono, ou acordo lá pela madrugada com a cabeça a mil por hora... Pior de tudo é que geralmente nem consigo aproveitar esse tempo de alguma forma produtiva.
Numa das últimas viagens dele, na primeira noite, o cansaço me venceu e dormi muito cedo. E, claro, também acordei cedo: às quatro da manhã. Como sempre, lutei pelo sono, me esforcei para voltar a ele... Mas os pensamentos me foram mais fortes e venceram. Muitas lembranças e reflexões, algumas que começaram como um sonho...
Lembrei, por exemplo, que já estamos casadíssimos há belos quinze anos. Belos e curtos, belos e intensos, belos e nostálgicos, belos e marcantes. Percebi, meio dormindo acordada, nessa minha luta com a insônia, que já sou um pouco dele e ele um pouco de mim. Reconhecidamente tão diferentes, estamos aprendendo, na convivência diária, diante de dificuldades e alegrias, a sermos cúmplices e parceiros, a nos apoiarmos e completarmos, a nos integrarmos um ao outro.
Ele absorveu algo de meu jeito reivindicativo. Tornou-se mais inconformado com injustiças. Às vezes ainda consegue ser falante, sorridente, quase impulsivo. Bem às vezes...
Eu de repente me descubro tentando - ainda com muita dificuldade - imitá-lo na quietude, me esforçando para pensar antes de falar, aprendendo a duras penas que cada centavo pago para não entrar numa briga vale muito. Também aprendo com ele a ser mais sutil, a calar mais, a falar somente o suficiente. Num esforço sobre-humano, descubro o prazer de eventualmente conseguir ser tranquila e calma, deixar pra lá, esperar a raiva passar sem dizer uma palavra sequer.
Tenho certeza de que isso só acontece porque a cada dia admiro mais essa paciência, essa calma, essa sensatez que vejo no olhar desse homem da paz. Não faço ideia de qual pode ser a razão, mas é um alívio pensar que também sou digna da admiração dele.
Então descubro por que a ausência dele leva embora meu sono. É porque minha alma sente falta da certeza de amor que encontro nele, essa certeza de que podemos aprender um com o outro, e ensinar um ao outro, e nos misturarmos, sendo assim tão diversos como mar e canavial.

O MAR E O CANAVIAL
João Cabral de Melo Neto

Clique para ouvir:
 

O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.

O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.

O que o canavial sim aprende do mar:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.

O que o canavial não aprende do mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.

O CANAVIAL E O MAR

O que o mar sim ensina ao canavial:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.

O que o canavial sim ensina ao mar:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.

O que o mar não ensina ao canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.

O que o canavial não ensina ao mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.