domingo, 26 de fevereiro de 2012

João Cabral de Melo Neto

Quando o Manfred viaja é sempre a mesma coisa: ou não pego no sono, ou acordo lá pela madrugada com a cabeça a mil por hora... Pior de tudo é que geralmente nem consigo aproveitar esse tempo de alguma forma produtiva.
Numa das últimas viagens dele, na primeira noite, o cansaço me venceu e dormi muito cedo. E, claro, também acordei cedo: às quatro da manhã. Como sempre, lutei pelo sono, me esforcei para voltar a ele... Mas os pensamentos me foram mais fortes e venceram. Muitas lembranças e reflexões, algumas que começaram como um sonho...
Lembrei, por exemplo, que já estamos casadíssimos há belos quinze anos. Belos e curtos, belos e intensos, belos e nostálgicos, belos e marcantes. Percebi, meio dormindo acordada, nessa minha luta com a insônia, que já sou um pouco dele e ele um pouco de mim. Reconhecidamente tão diferentes, estamos aprendendo, na convivência diária, diante de dificuldades e alegrias, a sermos cúmplices e parceiros, a nos apoiarmos e completarmos, a nos integrarmos um ao outro.
Ele absorveu algo de meu jeito reivindicativo. Tornou-se mais inconformado com injustiças. Às vezes ainda consegue ser falante, sorridente, quase impulsivo. Bem às vezes...
Eu de repente me descubro tentando - ainda com muita dificuldade - imitá-lo na quietude, me esforçando para pensar antes de falar, aprendendo a duras penas que cada centavo pago para não entrar numa briga vale muito. Também aprendo com ele a ser mais sutil, a calar mais, a falar somente o suficiente. Num esforço sobre-humano, descubro o prazer de eventualmente conseguir ser tranquila e calma, deixar pra lá, esperar a raiva passar sem dizer uma palavra sequer.
Tenho certeza de que isso só acontece porque a cada dia admiro mais essa paciência, essa calma, essa sensatez que vejo no olhar desse homem da paz. Não faço ideia de qual pode ser a razão, mas é um alívio pensar que também sou digna da admiração dele.
Então descubro por que a ausência dele leva embora meu sono. É porque minha alma sente falta da certeza de amor que encontro nele, essa certeza de que podemos aprender um com o outro, e ensinar um ao outro, e nos misturarmos, sendo assim tão diversos como mar e canavial.

O MAR E O CANAVIAL
João Cabral de Melo Neto

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O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.

O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.

O que o canavial sim aprende do mar:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.

O que o canavial não aprende do mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.

O CANAVIAL E O MAR

O que o mar sim ensina ao canavial:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.

O que o canavial sim ensina ao mar:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.

O que o mar não ensina ao canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.

O que o canavial não ensina ao mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.