sábado, 26 de maio de 2012

Débora Siqueira Bueno

Quando pequenininha, sua marca registrada era um sorriso constante. Sorria sempre, sorria o tempo todo, sorria mesmo. Sorria. Simplesmente sorria. Espoleta, arteira e moleca, Gabriela não gostava de nada que a amarrasse, fossem roupas, sapatos, maria-chiquinhas ou paredes. Os brinquedos precisavam ser grandes, os espaços também. Chorei quando ela nasceu, num pressentimento incrível de que Gabriela seria uma filha boa e obediente, e que isso nos aproximaria de forma incrível. Acertei em cheio. No meio de sua agitação, tive a filha mais obediente e generosa que podia ter tido. Aliás, generosa em extremo! Nada que lhe pedissem ela conseguia negar. A melhor boneca, o melhor lápis... Generosidade cara, mas fazer o quê?
Numa de minhas madrugadas insones, Gabriela, já com uns 5 aninhos, acorda também e me pede à queima-roupa: "Mãe, me ensina a ler a Bíblia?" E eu, do alto de minha tolice, ensaio uma explicação pedagógica de que "esse não é o melhor livro para se aprender a ler, que precisava aprender com outros livros, para depois ler a Bíblia." Gabriela abaixa a cabecinha e o olhar, triste. Queria aprender a ler a Bíblia, ora bolas! Porque não tratei de ler para ela, um pedacinho de cada vez?
Sempre me questionava: "Mãe, como Deus fala com você e não fala comigo?" E eu orava, pedindo que a falta de fé não se abrigassse naquele coraçãozinho generoso e questionador. E foi numa manhã quase ensolarada que Gabriela acordou agitada e saltou sobre mim, na cama: "Mãe, Deus falou comigo hoje de noite!!" É mesmo, filha? E como foi isso?" "Ele tava sentado numa cadeira bem grande, e tinha um arco-íris em volta dele, e tinha um monte de espuma..." "É mesmo, filha? E o que foi que Ele te disse?" "Ele disse pra eu sempre ir na casa dele e sempre adorar ele..." E eu nem tinha lido a Bíblia pra ela ainda...
Esse acontecimento sempre vem à minha lembrança, em especial naqueles momentos em que nós aqui em casa estávamos longe de Deus e da Igreja, e a Gabriela simplesmente prosseguia no caminho, indo sozinha para a casa do Senhor, nunca questionando nada, simplesmwente obedecendo aquele chamado...
Aliás, por falar em chamado... Gabriela já foi uma Azaleia muito linda numa pecinha de teatro na Igreja. Totalmente preocupada em organizar as flores, nem conseguia ficar quietinha em seu lugar, como convém a uma flor; ia lá, arrumava a outra flor, voltava pro seu lugar; se alguém saía do lugar, ia até lá e arrumava de novo... Até hoje Gabriela é assim: Deus a plantou no jardim da minha vida quando era meio que um terreno quase baldio. E quando as coisas saem de foco, Gabriela vai lá, e com seu jeitinho especial, me ajuda a colocar cada coisa em seu devido lugar.
Naquela pecinha de Igreja, a Azaleia só tinha uma fala: "Chamado? E o que é chamado?"
Chamado é isso, minha Azaleia. Chamado é ter sido criado por Deus com um propósito. E obedecer ao teu chamado é fazer aquilo para que Ele te criou. Chamado é isso que você tem obedecido do alto de seus quinze anos.
Minha filhinha cresceu e todo dia me ensina uma lição. Vamos andando na vida, e ela me questiona de um jeito bom, que me convence a mudar. Gabriela preenche a casa. Ela faz, ela age, ela se responsabiliza. Gabriela independe. Ela segue seu caminho, sem se afetar com circunstâncias, parece até inatingível. Gabriela sofre, sim. Mas não faz drama. Gabriela se supera. Dona de sua vontade, ciente de seu talento. Gabriela não parece muito preocupada com o futuro. Ela simplesmente segue em frente. Crente convicta, segura, como somente quem crê num Deus real é capaz de crer.
Parece que Gabriela aprendeu cedo a ser forte. Desconfio: foi Deus que ensinou em segredo a ela essa lição, naquela noite de espuma e arco-íris. Gabriela sabe o que é estar diante do trono da graça de Deus.

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A MINHA FILHA JUNTO DE MIM
Débora Siqueira Bueno

A minha filha junto de mim lê os meus sonhos.
Tento evitá-lo –
aquilo não é coisa pra criança.
Insiste.
– Credo, mãe! Isso não é sonho, é pesadelo!
Senta-se e escreve em meu lugar.

A minha filha junto de mim me junta a mim,
a desjuntada, me aconchega
e nina o desânimo em que me encontro.
Espanta o siso e abre o riso e fecha o livro
de onde brotam tais palavras mal escritas.

A minha filha junto de mim me traz de volta
ao mundo vivo em que pertenço a alguém
que me pertence e me
Escreve – filha –
palavra forte.
Inscreve – mãe –
me faz alguém.

A minha filha junto de mim sonha seus sonhos
E abre o livro vivo que há em mim.

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